Avançar para o conteúdo principal

o que nunca deixou de ter sido, I: a timidez consigo mesma

Despedimo-nos depressa.
A noite entornava-se de frio, os gestos ficavam estranhos, gastos depois de muitas cervejas, cigarros; e o cansaço de tantas paisagens emocionais que fizemos falando juntos, os pés enlameados disso, dessa espécie de viagem e encontro - sem fuga.
Eu não tinha nada para lhe dizer depois de uma noite assim, ao contrário do tempo; e ela ainda menos, talvez subitamente tímida mas não comigo. Uma espécie de timidez que só encontrei na Dinamarca, uma timidez dela consigo mesmo.
A taberna do canto no meio da Bergmannstrasse parecia agora cortar a cidade a meio: três da manhã  de um sábado onde faziam menos dez graus, uma neve escassa e rala, já suja, os meus gestos frios e os dela estranhos. 
Não havia números para trocar, propostas para fazer, futuros para combinar: nós não éramos os gestos seguintes um do outro, e nem os queríamos. Não era sexo o que nenhum de nós queria um com o outro a seguir, ou mesmo nunca, nem ao início. Mas saímos com a sensação de que saíamos um do outro, e que não havia mais lugar nenhum para voltar. Dois subitamente estranhos, um do outro e de si mesmos, nus estruturais, a afastarem-se de paisagens emocionais aonde nunca mais regressariam.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónicas de Berlinzâncio: hibernatio

Despedia-me da rua sabendo que nunca mais nos voltaríamos a encontrar. Poderíamos um dia voltar a ser o mapa e os pés um do outro, mas não a mesma geografia.
Tinha nevado e as árvores estavam cobertas de neve, com sol. Soou a regresso, a uma hibernação -  como quando uma memória se fixa, se guarda dentro, para não desaparecer mais.
Hibernatio, hibernação. Agora percebo, por causa do frio, da neve, de a própria natureza ficar coberta de um manto branco, pacífico, hiber, do inverno. Mas natio vem de nascer. E é isso que tem acontecido comigo - nascer de novo. Pela solidão, pelo espelho tremendo que Berlim é para mim, interiormente reflectindo-me em sítios interiores onde não quero ser e onde não queria estar, e no seu oposto. Mas sempre com os pés nesta terra inquieta, nova, imparável.
A memória acorda, agora, dessa despedida de há cinco anos, quase seis. E o mundo parece gelado, de tal forma conteúdo e imagem se transformaram na pele mais densa; na casa; no corpo.

Uma expandida, outrada manhã

Uma manhã larga, com cheiro fresco a relva, prados sucedendo-se a prados, os olhos a correrem a descobrir o sol. Era assim que queria esta manhã: expandida, desdobrando-se, céu e campos a desmedirem o dia.
Uma manhã que não fosse minha. Que não fosse deste corpo, da memória destes olhos, do alcance dos pés ou das memórias - que fosse mais alta que eu. Uma manhã que fosse de outro ser, mas que esse ser fosse eu.
Uma sensação total e toda estrangeira, intacta e toda: onde eu pudesse ser mais além deste feixe de ossos e carne, tudo lugares que conheci e que me limito. Onde eu pudesse ser o começo, os astros desmesurando-se, a vida nova e inteira: uma manhã, correndo para o sol, a extensão plena e outra.

(para a Cuenca; e para a Claudia, o Miguel e o Nemo)

O rapto de Europa

A História começou com um rapto de três mulheres - uma delas, Europa. Bom, não a História mas as Histórias de Heródoto. Se a considerarmos como o primeiro grande livro de História do mundo, depois de tantos outros onde se inspirou e que agora são apenas ecos, então a História começou com Heródoto e com três raptos. Por mais que tenha lido o início, espanto-me sempre com o momento, simples e despretensioso, em que depois de duas páginas de povos, actos, nomes e raptos, Heródoto explica ao que vem: "humanos e prosperidade nunca passam muito tempo um ao lado do outro". Há 2500 anos, já Heródoto tinha compreendido que o conflito é a tentação do homem. A Europa vive há setenta anos com paz. Nenhuma guerra devastou o continente como parece ter sido marca da sua história desde tempos imemoriais. Isso deve-se à União Europeia. Com todas as dificuldades e falhas do modelo europeu - e um certo modelo financeirista deste modelo europeu, mas isso é outra conversa - esse conflito foi al…

Irregularis

Em Dezembro de 2017 retomei este blogue, depois de um ano de pausa. Prometi mantê-lo activo durante um ano pelo menos: e cá estive todas as quartas e domingos.
Um projecto de escrita na fase final leva-me a suspender o blogue sine die. Mas desta vez prometo ir postando uma crónica de vez em quando, ao sabor dos dias. O blogue continuará, em modus irregularis.
Agradeço aos leitores, e agradeço à vida que continua a surpreender e a criar mais vida, apesar dos tempos escuros em que navegamos.
Até sempre já.

o parafuso de ferro

Já é automático. Durante anos não foi. O automatismo custa: dois anos, um e meio deles durante cinco horas por dia. Sentia que me tiravam o cérebro às oito da manhã, o martelavam incessantemente durante cinco horas, e o voltavam a pôr no lugar. Ou não bem. Talvez seja esse o uso do cérebro - nunca estar bem no mesmo lugar. E quando começava a conseguir balbuciar, pára tudo.  Falo da minha aprendizagem de alemão, quando vivia em Berlim. Não acredito tanto no "burro velho não aprende línguas" mas mais na surpresa que é perceber como é a forma como aprendo; e depois disso, perceber como o método de aprendizagem de cada um pode ficar enferrujado.
Mesmo tendo trocado o alemão pelo francês como língua diária, ele continuou lá: os seus magníficos e ultra-resistentes parafusos de ouro mantendo ligações distantes no meu cérebro. E eis que a vida me levou a aprender Neerlandês. Ao início, parecia fácil: o alemão ajudava-me a compreender muito. Mas depois, o caos: assim que abri os lá…

Cinco álbuns de 2018, parte II

Partilho ainda dois álbuns que me ajudaram a atravessar 2018.

IV: Saint-Saens, concerto Nº5
Saint-Saens tinha ficado para mim reduzido ao concerto para violoncelo, inventivo e inquieto, ao romantismo alambicado do "Cisne", ao romantismo tardio da "Sinfonia com Órgão". Outros caminhos levaram-me a descobrir os concertos para piano e orquestra, que não são Beethoven mas não precisam de ser: têm uma surpresa e um encanto finissecular.
Este em particular, que parece sair do século XIX para chegar ao século XX como Álvaro de Campos no "Opiário", não fosse o concerto "egípcio" e baseado numa canção ouvida por Saint-Saens cantada por um gondoleiro no Cairo.
Para nova surpresa, percebi que não há muitas gravações do concerto, mas as que existem são de grandes pianistas que se apaixonaram pela obra. Uma delas é a de Richter e Kondrashin, um trovão gelado moscovita, que marca com uma surpresa. Oriente e ocidente, fim de século e melodias quebradas, como …