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Viena cercada

Viena foi criada pelos romanos como reduto oriental para reter as invasões bárbaras. De forte magnífico no Danúbio para um dos centros da cultura ocidental - eis  um dos milagres que a cultura germânica consegue fazer. Mas é também por ter sido sede de um império complexo e polvilhante pela Europa fora, da Bélgica à Sérvia com pedaços italianos, e por ser - et pour cause - um império multinacional, que Viena se transformou numa espécie de dança: todos os movimentos reunidos.
Anda-se por Viena e ainda hoje se sente a sua dupla natureza, águia de duas cabeças: extremo ocidental e já oriental.

Preocupo-me com um governo fascista na Áustria: com o mero facto de existir, com cada dia em que está em acção, com os efeitos diários da sua acção. Entre muitos aspectos, o discurso anti-imigração e anti-diversidade banalizou-se; um amigo austríaco dizia-me há dias que os ministérios estão cheios de trintões de fatos caros e cicatrizes na cara, marcas de luta física que a extrema direita venera como sinal de dedicação e esforço.
Se é preciso combater, em Viena, em Bruxelas e em cada frase, a ocupação do discurso pela cultura da exclusão, é também preciso perceber que se a Áustria se sente cercada, é porque o mundo está em convulsão. O governo fascista é um episódio e um acordar para que resolvamos o verdadeiro problema: sermos Europa de novo.

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