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Já é tarde demais?

The Sack of Rome by the Visigoths, by J-N Sylvestre, 1890.
A visita de Trump à Europa dissipou todas as dúvidas. Se a peça de teatro que montou na NATO já tinha sido esclarecedora (atirando contra a Alemanha, dizendo que depende da Rússia, e pedindo aos aliados que paguem 4% do orçamento para a defesa), o que fez no Reino Unido foi pior. Como escrevia Jonathan Freedland aqui, o que se passou em Londres é uma imagem do que será o Reino Unido sozinho no pós-Brexit: uma presa fácil e manipulável dos Estados Unidos, o depósito de lixo da Rússia, que para lá atirou venenos velhos, coisa como nem na Guerra Fria se podia imaginar. A senhora May não podia ter descido mais baixo; ter-se-ia facilmente salvo com uma resposta em directo; mas ela nunca representou nada senão ela própria e a estirpe do mais básico sentido de casta do Partido Conservador, que ela mais defende por não ter nascido nele.
Trump é um elefante numa loja de porcelanas consciente: ele visita os lugares para os assassinar simbolicamente. A acção de Putin faz o resto, pagando a populistas, mexendo cordelinhos na internet.

Tudo isto seria apenas muito perturbador apenas se não tivesse sido a frase final. Ao sair do Reino Unido para ir encontrar Putin, Trump disse que a "União Europeia é um inimigo"; não apenas um inimigo, mas "o pior inimigo".
A conferência de imprensa depois da reunião com Putin, em Helsínquia, foi reveladora: Trump disse que confia tanto nos seus serviços secretos quanto no que Putin lhe diz. Isto quando lhe perguntaram: "Em quem acredita?", em relação à manipulação das eleições.

O problema já não é depor Trump. Por cinco motivos, já é tarde demais.
1. Trump não repete nada novo (coitado, se pudesse!); os americanos há muito que defendem um aumento nos orçamentos da defesa por parte dos aliados da NATO. Robert Gates, o ex-Secretário da Defesa dos EUA, disse-o na sua última reunião da NATO em 2011. Nenhum novo presidente americano, o Senado ou mesmo os cidadãos, por mais defensores da ordem mundial que possam ser, vão deixar a ideia cair, quer a trabalhem mais ou menos activamente. Se a Europa quer ser protegida da Rússia, terá de pagar mais - esta é a ideia infiltrada. A máquina da extorsão está montada. 
Esquecem-se os Estados Unidos que este conceito de mundo e de Europa que temos foi criada por eles e tornou-os na maior potência mundial. Mas a História é a primeira coisa a ser destruída pelos populistas. O que Trump quer é a lei do Oeste, onde só há inimigos. E um mundo sem laços nem objectivos que não o lucro imediato. O mundo é o faroeste.

2. A base de apoio de Trump seguirá mesmo alguém que cumpra apenas metade do seu programa. Ele não faz nada, ele apenas segue o programa que gritou (e grita, nos seus comícios permanentes) às massas. A internet e as redes sociais fixam esse público cada vez mais e melhor, são "câmaras de eco" para isso. A cultura actual onde não se lê, não se discute, se ouve o eco do mesmo em mundo fechado faz com que cada um viva no seu mundo odiando o outro. Esperam-nos longos anos onde as ideias de Trump (que são de Putin, que são do lado mais conservador da América) vão ser lei. Elas estão cá fora e agora é impossível tirá-las do discurso.

3. A ideia de que a União Europeia é um inimigo rico e injusto acaba de nos cercar. Temos o Reino Unido a sair, e com o Brexit, por melhor ou pior acordo para ambas as partes, vai ser repetida vezes sem conta. Temos a China a querer uma parceria comercial que nunca poderemos aceitar, porque é um abraço de morte. Temos os Estados Unidos a combater-nos em todos os sentidos. E temos a União Europeia a colapsar por dentro devido ao populismo, que Putin e Trump aguçam. A Itália vai ser a primeira a tremer. Os países da esfera da ex-URSS os seguintes. Vamos ficar menos, talvez até poucos. O espectro é que a União Europeia acabe ou fique reduzida a um punhado de países, ou entrem novos (como a Noruega). E que se não formos atacados por um exército russo a invadir um país báltico, seremos certamente atacados todos os dias virtualmente, simbolicamente. A "fortaleza Europa", ideia fechada que a União Europeia procurava combater, poderá tornar-se uma realidade para se defender. 

4. Putin já conseguiu interferir em dois eventos eleitorais da maior gravidade: o Brexit e as eleições presidenciais dos EUA. Já conseguiu fazer o pior: pôr em causa a confiança na democracia. E isso é ainda pior quando instala populistas no poder.

5. Porque na Europa somos democracias, porque aceitamos a diferença, porque votamos nos nossos representantes, vamos sofrer. Estamos rodeados de autocratas por todos os lados. O modelo das democracias ocidentais está a ser atacado. O impensável - que a maior democracia do mundo se transformasse numa ditadura simbólica - aconteceu. China, Rússia e Estados Unidos, autocratas, e a União Europeia sozinha. Lentamente, um a um, das eleições manipuladas pelos "bots" russos, aos valores que defendemos, tudo vai ser atacado. E estamos a sê-lo por isso mesmo: porque somos democracias.

O que podemos fazer? Muito. Tudo: resistir. E resistir é lutar pelos nossos direitos a cada instante. E perceber que ficámos acomodados num conforto decadente que tem de acabar nas nossas vidas já. É não deixar que a conversa com os amigos ou a família caia nas banalidades, mas que fale de frente dos valores invertidos, das ideias que se metem entre o pensamento e o discurso e matam o nosso mundo. Sobre isso falaremos em Setembro. É possível e é urgente resistir.

Boas férias, se conseguir. Aproveite um dos últimos verões de paz que teremos. De paz relativa, porque o mundo que conhecemos desmantela-se simbolicamente à nossa volta.

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