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Depois do Facebook (ou o novo ano mil)

Fonte: http://abbasakhavan.com
Faz hoje precisamente um mês que apaguei a minha conta Facebook.
Foi como deixar de fumar: uma breve privação, e depois parece que nunca existiu.

Em troca, prometi-me ler muito mais e prometi aos amigos escrever emails mais longos. Passaram 4 semanas e em cada uma delas um longo email seguiu para pessoas que amo e com quem agora troco muito mais do que um "page down", um polegar para cima, ou um sorriso sem conteúdo. 

A que querem as redes sociais que fiquem reduzidas as nossas interacções? Leio no "The Guardian" que nos últimos anos os jogos de tabuleiro têm conhecido um aumento louco de interesse e de vendas. Uma interacção real, mesmo que mediada pelo jogo; ao contrário daquela que as redes sociais oferecem, que não é real e sofre todo o tipo de mediações (e de intermediações). Mais: que desenvolve uma espécie de mentalidade fechada. Torna-nos voyeurs permitidos, comentadores de bancada das vidas dos outros, distraídos com distracções de distracções. 
Mas saber que essa mentalidade é simultaneamente pão e circo para os utilizadores de redes sociais, para que cada movimento que fazemos se tornar pão para os que montam um circo bem maior: controlar a democracia, o pensamento livre, a liberdade de expressão. Continua para mim a ser um espanto que tanta gente continue a sua vida no Facebook, depois da revelação do escândalo "Cambridge Analytica", como se nada fosse.
Para mim, depois disto, a gota de água foi que até os fabricantes de telemóveis recebem informação dos nossos usos via Facebook - para criar máquinas que ainda mais tenham a capacidade de nos prender.

Mas sinto que estou no ano mil: cartas manuscritas e sinais de fumo são a minha forma de me corresponder com os outros. Mas, como no ano mil, tenho também a sensação de que um perigo iminiente espreita, disfarçada numa notificação de "like" de Facebook. Sinais de outros fumos, de outros incêndios.

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