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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2018

Repost: auto-ajude-me

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

A barreira dos cinquenta foi recentemente transposta, sem berreiro. Ela teria gostado de algum barulho, de uma festa surpresa, de uma manifestação pelo menos última dos seus próximos. Alguma coisa para a qual passear o pensamento nos dias iguais e tristes. O lenço verde-água com desenhos azuis está demasiado prendente ao pescoço, decoração que passou a ser conforto.aqui).
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Repost: o corvo

(Vamos de férias mas a releitura faz bem à literatura; ora releia um post antigo)
Quando o Outono vermelho foi mudado pelo longo Inverno, os pássaros chilreantes foram substituídos pela única ave que corta o branco frio de Berlim: o corvo.
Na minha memória, para além dos corvos de S. Vicente, para sempre na história e na bandeira de Lisboa, o pássaro era irremediavelmente uma coisa negra e atacante, companhia da Maga Patológica, amante de cemitérios, a considerar cadáveres uma delícia. Entre a neve, ouvir as asas negras grasnar sobre a tranquilidade trazia qualquer coisa de perturbador. Até que comecei a escrevê-lo. Àquilo: o romance que escrevi aqui em Berlim, que é sobre Portugal.
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Repost: os meninos da mamã Europa

(No período de férias, as Crónicas de Bizâncio praticam a releitura, republicando "posts" anteriores; uma releitura por dia, sabe o bem que lhe fazia?)

Depois era vê-los: sempre a falar o mesmo Inglês arrotado de consonantes arrastadas, rabecadas entre séries californianas e o que pensam ser inglês de Oxford. Estão sobretudo em Kreuzberg à noite, a relacionar-se com o mundo através do seu iphone. Escondem mal as roupas de marca por cima de um casaco em 2a mão que compram na Bergmannstrasse e que devem achar a maior loucura que fizeram na vida. Enchem as escolas de línguas do Estado de Berlim a aprender Alemão; aulas a que faltam quando a professora começa a apertar-lhes os calos ou a condená-los por chegarem mortalmente atrasados. "Puttana nazista". Enfadam-se mortalmente com as aulas, os colegas da mesma nacionalidade, os de Leste, os do Sul, os do Norte, e estão em Berlim com desejo de "Néue Iórquee" como uma ovelha a balir Almeida Garrett.

Já é tarde demais?

A visita de Trump à Europa dissipou todas as dúvidas. Se a peça de teatro que montou na NATO já tinha sido esclarecedora (atirando contra a Alemanha, dizendo que depende da Rússia, e pedindo aos aliados que paguem 4% do orçamento para a defesa), o que fez no Reino Unido foi pior. Como escrevia Jonathan Freedland aqui, o que se passou em Londres é uma imagem do que será o Reino Unido sozinho no pós-Brexit: uma presa fácil e manipulável dos Estados Unidos, o depósito de lixo da Rússia, que para lá atirou venenos velhos, coisa como nem na Guerra Fria se podia imaginar. A senhora May não podia ter descido mais baixo; ter-se-ia facilmente salvo com uma resposta em directo; mas ela nunca representou nada senão ela própria e a estirpe do mais básico sentido de casta do Partido Conservador, que ela mais defende por não ter nascido nele. Trump é um elefante numa loja de porcelanas consciente: ele visita os lugares para os assassinar simbolicamente. A acção de Putin faz o resto, pagando a popu…

Repost: Stokowski e Bach

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)


LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
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Irritações & Reclamações de um Utente Frequente de Aviões

Depois do Facebook (ou o novo ano mil)

Faz hoje precisamente um mês que apaguei a minha conta Facebook. Foi como deixar de fumar: uma breve privação, e depois parece que nunca existiu.
Em troca, prometi-me ler muito mais e prometi aos amigos escrever emails mais longos. Passaram 4 semanas e em cada uma delas um longo email seguiu para pessoas que amo e com quem agora troco muito mais do que um "page down", um polegar para cima, ou um sorriso sem conteúdo. 
A que querem as redes sociais que fiquem reduzidas as nossas interacções? Leio no "The Guardian" que nos últimos anos os jogos de tabuleiro têm conhecido um aumento louco de interesse e de vendas. Uma interacção real, mesmo que mediada pelo jogo; ao contrário daquela que as redes sociais oferecem, que não é real e sofre todo o tipo de mediações (e de intermediações). Mais: que desenvolve uma espécie de mentalidade fechada. Torna-nos voyeurs permitidos, comentadores de bancada das vidas dos outros, distraídos com distracções de distracções.  Mas saber…

Assumir a chuva

O dia ameaçava, por diversos tons de nublado e por uma dança ventosa, colante e escarpa, uma chuvada dramática. Não entendo como a Bélgica não gerou mais dramaturgos, dada a densidade teatral do pré-tempestade. Em Portugal ruge e abate-se, é mais a ira de Deus anunciada e cadente. Aqui parece que o processo de reflexão divino está plasmado no tempo, como se estivesse sentado no psicólogo a decidir o que sente, isto é, o que chove, como vai chover. O dia ameaçou todo o tempo mas fui de bicicleta a toda a parte. No menor dos percursos decidi deixar em casa o impermeável, adiposo num dia calorento. Pois foi nesse minuto preciso em que, gloriosamente em cima da bicicleta e a gozar o vento dramático da pré-chuva, ela se abate contra mim. O efeito é imediato: parece que me fecho, ombros para dentro, olhos semicerrados, a chuva a colonizar-me os óculos como uma potência ocidental. Camisa, casaco, pés nus, calças, mãos, tudo empapado como se me achasse no meio do Canto V dos Lusíadas, mas a tr…

Viena cercada

Viena foi criada pelos romanos como reduto oriental para reter as invasões bárbaras. De forte magnífico no Danúbio para um dos centros da cultura ocidental - eis  um dos milagres que a cultura germânica consegue fazer. Mas é também por ter sido sede de um império complexo e polvilhante pela Europa fora, da Bélgica à Sérvia com pedaços italianos, e por ser - et pour cause - um império multinacional, que Viena se transformou numa espécie de dança: todos os movimentos reunidos.
Anda-se por Viena e ainda hoje se sente a sua dupla natureza, águia de duas cabeças: extremo ocidental e já oriental.

Preocupo-me com um governo fascista na Áustria: com o mero facto de existir, com cada dia em que está em acção, com os efeitos diários da sua acção. Entre muitos aspectos, o discurso anti-imigração e anti-diversidade banalizou-se; um amigo austríaco dizia-me há dias que os ministérios estão cheios de trintões de fatos caros e cicatrizes na cara, marcas de luta física que a extrema direita…