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Um pastor manuscrito: mensageiros vários

Fonte: https://whatscookinvt.files.wordpress.com

O senhor A decidiu copiar a carta antes de a enviar. Tinha tempo: a letra espraia-se segura e longa, gere bem o espaço no papel, não corrige: é uma cópia limpa. O original está guardado, ou no lixo, ou enviado a alguém. Sobrou espaço. Calhou bem, porque faltava saber de um certo assunto sobre o qual ainda não tem novas.
A tarde corre e a carta original ficou à espera, esta cópia no seu copiador também. A notícia chega, como sempre com alguém com mais pressa que a pressa, vinda de cavalo ou de barco como as notícias longas que atravessaram países. A notícia entrou pelo palácio com passos e portas a bater. As palavras, rasgadas ou ditas. O senhor A sai, para avisar alguém. O espaço da carta está preparado, sente os passos que chegam. Pelo caminho, o senhor A grita ao senhor B o que deve escrever no resto da carta, e copiar. Um "postscriptum" garatujado na carta, e mais ainda na página que afinal fica desfeada com esta caligrafia assustada pela gravidade e pelo eco das suas consequências.

Noutro país, muitas milhas de água e pó depois, o senhor C lerá a carta, que traz uma notícia de semanas mas que aguardava há meses. Pousa o papel e pensa no que escreverá. O que pode dizer a esta distância?

O tempo é todo outro. Eu páro e olho para o meu computador, para o email que acaba de cair, interrompendo a página do manuscrito e o Dixit Dominus de Haendel que me coloca um pouco mais na época. O email traz-me uma notícia que esperava desde de manhã, e que espererei como se fosse há meses. Respondo logo. Um mensageiro invisível atravessou países e levou-a consigo.

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