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O fiel da balança

Com o Brexit, não é apenas a saída do Reino Unido da União Europeia que está em jogo. É o fim do Reino Unido como fiel da balança da Europa.
É um ciclo de 300 anos que se quebra.
Em 1713-1715, foi assinado um tratado em Utrecht que pôs fim à Guerra da Sucessão espanhola. O leitor estará já a dormir e a perguntar o que é que isto tem a ver consigo. Muito: a guerra levantou a Europa, uns contra os outros, para impedir que o Rei de França e o Rei de Espanha fossem uma e a mesma pessoa. Acabaram por ficar na mesma família, por mais que os Habsburgo austríacos o pretendessem. A guerra opôs França, de um lado, à Áustria, Reino Unido, Prússia, Holanda e Portugal, de outro.
Na difícil paz assinada em Utrecht, os britânicos receberam, entre outras coisas, a Terra Nova e Gibraltar. Lucraram imensamente com o tratado. A sua marinha e o seu poder negocial tiveram um papel preponderante. A partir daí, nada se fecharia na Europa sem a sua intervenção.

2015, trezentos anos depois precisamente, os Britânicos votam a favor do Brexit. O Reino Unido, tantas vezes (para o bem e para o mal) o fiel da balança nos equilíbrios dentro da União Europeia, sai. E perde relevância Europeia. Merkel e Macron despacharam-se logo a ocupar o seu papel. O desnorte do Reino Unido e o tufão que governa os Estados Unidos estão a tornar a Europa num baluarte de equilíbrio e de respeito pela democracia; são os seus valores que brilham, como se viu com a situação do acordo com o Irão. E brilha mesmo que haja questões internas difíceis, como a Hungria ou a Polónia. A UE está a projectar uma imagem que vem da força e clareza dos seus próprios valores, e estes dois países serão sempre vistos no contraste disto.

O que importa aqui: um ciclo que se fecha. O Tratado de Utrecht chamava-se "Tratado de Paz e Amizade". Isto é a União Europeia. Os Britânicos acabam por excluir-se disso mesmo. Assistimos provavelmente ao fim do Reino Unido como potência mundial.

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