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Diariamente, I: Pelo Diário I de Torga

Talvez venha do meu passado religioso, da vertigem de ser um anotador interior. Certo é que sempre gostei de Diários, embora tenha sempre sido um leitor irregular deles. O que na verdade, me parece ser o que um leitor ideal de Diários deve ser: acompanhar o ritmo dos dias, que não é o do calendário do tempo, mas o do destempo interior.
Num tempo cada vez mais cronometrado pelos telemóveis, em que o tempo virtual dos outros, o presente imediato das máquinas corta toda a respiração interior, um Diário devolve à raiz: ensina a aprofundar, devolve o ar aos pulmões da alma.

Tenho diaristas que prefiro a quaisquer outros; no topo da lista está sempre Julien Green; li aos 20 anos o seu último Diário, En avant par-dessous les tombes, e volto a Green sempre que perco a noção da paragem para escrever. A que o Diário I de Torga regressa: 
"Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera; e nada escrevo. A vida não é para se escrever." (7 de Outubro de 1936).

Como todas as crianças portugueses da década de 80, li Os Bichos. Descobri a poesia de Torga na faculdade, sobretudo por via de uma gravação do próprio a ler os seus poemas. E na Feira do Livro, cada ano, ia acumulando e semeando volumes dispersos do Diário que acabava por nunca começar.
Com a decisão dos meus 41 de fazer um Diário diário, cada dia, veio também a fome e a curiosidade de ler o que os percursores nesta suavíssima tarefa fizeram. E com isto, faço sair o Diário I da pilha de livros a ler, e começo.

Não comecei como conta Orwell no seu Hop-Picking Diary por achar que Eugène Grandet era "French? That must be pretty warm". Esperava uma espécie de secura, pelo contrário. Nada de mais falso: há mesmo uma ternura, funda e esmagada,  uma densidade de compromisso com o mundo.
O Diário tem saltos: de espaços, de meses largos entre si. Imagino muitas páginas anteriores rasgadas, a depuração à procura do "ouro do dia" que ocupava os últimos dias de Julien Green no seu último Diário. Mas apanhamos os últimos dias de Coimbra, quase perdendo um braço no eléctrico, o rasganço depois de ser doutor, a ida para São Martinho de Anta para ser médico, a estranheza da terra e as saudades de Coimbra:

“A linguagem que o meu sangue entende – é esta. A comida que o meu estômago deseja – é esta. O chão que os meus pés sabem pisar – é este. E, contudo, eu não sou já daqui. Pareço uma destas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal.” (Miguel Torga, Diário I, 5 de Março de 1934).

O braço que ia perdendo num eléctrico ecoa nas páginas seguintes, em que se sente tão distante da vida em São Martinho de Anta, perdido no meio de Trás-os-Montes, "enterrado em montes até às orelhas", mas onde aprende a humanidade de novo, o peso terroso das coisas.

Depois vem uma viagem pela Europa; o trabalho com regresso cíclico a Trás-os-Montes e a aprendizagem permanente com a terra, dos ciclos à sensibilidade. O casamento, de que temos uma notícia breve. E a reflexão sobre o seu tempo e a literatura:


"A falta de tradição novelística é uma das grandes desgraças da nossa literatura. Só por ela se compreende que ao fim de sete séculos de língua estejamos ainda neste contar perro e grosso de que até os maiores fazem gala. Por isso é que nunca tenho coragem de atirar uma pedra seja a quem for que invente uma história à lareira tipográfica deste país. (...) É mesmo uma aflição verificar que nem os de nome e de público saem dum empastamento de prosa (...)". (Miguel Torga, Diário I, 23 de Janeiro de 1941).

Do fim do Diário I sai um equilíbrio e uma diversidade, entrecortados pelos poemas. Não há no Diário de Torga o sentido de desequilíbrio e sede que leio em Gide, ou a tentativa de harmonia com a vida do meu eterno Julien Green, ou os jogos de Orwell com a caneta e o espírito. Mas há uma depuração e uma aprendizagem: como se, por arte de uma inversão, o Diário fosse terra.

 

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