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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2018

Um postal de Gent

A montanha onde nasce o céu (Edimburgo)

Cidade de planos claros e linhas probas. Com uma montanha no meio, de onde brotam os edifícios da rocha, severos e dourados, brilhando como uma quimera de um reino antigo. Assim a imaginei nas páginas de Walter Scott, mas sobretudo nos poemas de Burns, nos quadros românticos. Porque não quis Deus trazer Casper David Friedrich à Escócia? Eu acho que ele pintou a Alemanha com saudades da Escócia que nunca conheceu. Contorno a Royal Mile por todos os lados. Parece mover-se, nuvem e barco, a competir com os poucos raios que as nuvens permitem, em brilho. Homens inteiros morreram para uma visão destas: as torres altas do seu país a desfiarem o céu. Aqui parece nascer o céu, o destino final, porque as suas acções ardem e abrem-no. Aprendo de novo a ver dentro da Scottish National Gallery. Espanto-me com a criatividade insubmissa e a riqueza das cores. Português a viver há seis anos em países de sol escasso, percebo que é no Norte da Europa que medimos a cor, que a temperamos, por tanta ausê…

Para sempre nunca

Não posso falar sobre Berlim que toda a saudade portuguesa, contida como um raio na mão de Zeus, cai sobre mim. Crava-se entre o coração e a garganta. É improferível. E contudo move-se: em imagens de saudade, em imagens de futuro. É como se houvesse uma segunda vida, que continuasse comigo em Berlim, e eu fosse uma outra vida aqui, quase um holograma, quase uma vida verdadeira. Escrevo isto e vejo, por todos os lados, de que Berlim é como a paixão de adolescência que os trinta anos mostram que não pode ser. A saudade portuguesa, congelada pelo inverno. Olho para o meu passado em Berlim. Sei que não tenho lá um presente. Olho e penso: "é para sempre", a ferida. Mas não é para o meu futuro: é para sempre, nunca. E como bom português, sou feliz por ter uma dor alta e diversa para onde voltar o coração.

O fiel da balança

Com o Brexit, não é apenas a saída do Reino Unido da União Europeia que está em jogo. É o fim do Reino Unido como fiel da balança da Europa.
É um ciclo de 300 anos que se quebra.
Em 1713-1715, foi assinado um tratado em Utrecht que pôs fim à Guerra da Sucessão espanhola. O leitor estará já a dormir e a perguntar o que é que isto tem a ver consigo. Muito: a guerra levantou a Europa, uns contra os outros, para impedir que o Rei de França e o Rei de Espanha fossem uma e a mesma pessoa. Acabaram por ficar na mesma família, por mais que os Habsburgo austríacos o pretendessem. A guerra opôs França, de um lado, à Áustria, Reino Unido, Prússia, Holanda e Portugal, de outro.
Na difícil paz assinada em Utrecht, os britânicos receberam, entre outras coisas, a Terra Nova e Gibraltar. Lucraram imensamente com o tratado. A sua marinha e o seu poder negocial tiveram um papel preponderante. A partir daí, nada se fecharia na Europa sem a sua intervenção.

2015, trezentos anos depois precisamente, os B…

The Gulda Mozart Tapes

Um pastor manuscrito: mensageiros vários

O senhor A decidiu copiar a carta antes de a enviar. Tinha tempo: a letra espraia-se segura e longa, gere bem o espaço no papel, não corrige: é uma cópia limpa. O original está guardado, ou no lixo, ou enviado a alguém. Sobrou espaço. Calhou bem, porque faltava saber de um certo assunto sobre o qual ainda não tem novas.
A tarde corre e a carta original ficou à espera, esta cópia no seu copiador também. A notícia chega, como sempre com alguém com mais pressa que a pressa, vinda de cavalo ou de barco como as notícias longas que atravessaram países. A notícia entrou pelo palácio com passos e portas a bater. As palavras, rasgadas ou ditas. O senhor A sai, para avisar alguém. O espaço da carta está preparado, sente os passos que chegam. Pelo caminho, o senhor A grita ao senhor B o que deve escrever no resto da carta, e copiar. Um "postscriptum" garatujado na carta, e mais ainda na página que afinal fica desfeada com esta caligrafia assustada pela gravidade e pelo eco das suas con…

Sobre a pintura

A pintura é mais terra e a água do que um homem. Não apenas porque fixa a cor, o pleno múltiplo, ou porque levanta o azul a todas as posições da água a que nem o homem consegue imaginar. 
Ao peso imenso da sua liquidez, persiste, uma moldura de madeira, pintada num lençol mais fundo que a mortalha, tecido mais têxtil que o texto. 
Mais terra e água que o homem, acordando o fogo que existe neste. Sim, a pintura acorda o seu perigo, aquilo que a pode apagar.

Diariamente, I: Pelo Diário I de Torga

Talvez venha do meu passado religioso, da vertigem de ser um anotador interior. Certo é que sempre gostei de Diários, embora tenha sempre sido um leitor irregular deles. O que na verdade, me parece ser o que um leitor ideal de Diários deve ser: acompanhar o ritmo dos dias, que não é o do calendário do tempo, mas o do destempo interior. Num tempo cada vez mais cronometrado pelos telemóveis, em que o tempo virtual dos outros, o presente imediato das máquinas corta toda a respiração interior, um Diário devolve à raiz: ensina a aprofundar, devolve o ar aos pulmões da alma.
Tenho diaristas que prefiro a quaisquer outros; no topo da lista está sempre Julien Green; li aos 20 anos o seu último Diário, En avant par-dessous les tombes, e volto a Green sempre que perco a noção da paragem para escrever. A que o Diário I de Torga regressa:  "Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera; e nada escrevo. A vida não é para se escrever." (7 de …