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Uma manhã nunca, VII: King's Cross

Acordo com um ruído de pássaros e um cheiro a verde. Parece que estou numa floresta. É a terceira cidade em três dias. Demoro um pouco a perceber onde estou, sinto a falta das gatas imediatamente, a saudar-me assim que acordo. Vejo a mala à minha frente, o saco da "Foyles" ao lado. Estou em Londres, mais particularmente em Eltham. Tenho de acordar cedo para ir para a British Library. A lembrança de manuscritos, de descobertas antiquíssimas tornadas absolutamente novas desperta-me num salto. A janela da casa de banho dá para o verde diverso e inteiro lá fora. Uma aranha enorme entrou pela janela aberta e faz teias de aranha vitorianas.
A família dorme nos quartos ao lado. Saio repentino para o frio de Janeiro, líquido e líquen, manso. Atravesso o jardim diverso e esbracejante, e saio para o relvado onde cresce um enorme carvalho centenário. Ouço um ruído nos caixotes do lixo. Vejo uma cauda: um texugo, parece-me, ou um cão? Passo ao lado, e é só no fim da rua que compreendo: era uma raposa.
Corro para o comboio. À esquerda um jardim inglês, povoado de esquilos e de sítios para ler, com o nome da escritora infantil Edith Nesbitt, que era daqui. Ao fundo o "Tudor Barn". Tenho dez minutos a mais, não me interessa a plataforma cinzenta e fria, e subo até ao palácio que Henrique VIII construiu aqui. Só um minuto de verde e pedras sábias para começar bem, ofereço-me. Só consigo ouvir as variações de Vaughan Williams a partir de "Greensleeves".
Um salto de volta para o comboio, que vai apinhado até King's Cross. Os comboios são velhos, as pessoas parecem tristes, mas estão bem vestidas e animadas. Somos uma massa única a sair do comboio e a entrar no metro. São poucas paragens, mas faz um calor tremendo e nunca ouvi um metro tão barulhento na vida. O dia começa, sou um cidadão de Londres emprestado a caminho de documentos de outras latitudes, outros séculos, numa biblioteca, por definição o lugar fora do espaço e do tempo.
Sorrio enquanto saio do metro para a chuva mais insistente que a belga. Estou em King's Cross, lembro-me do palácio de Eltham de novo. Terá o rei atravessado aqui para ir para lá, vice-versa? Nesta manhã estou feliz: sou um português que reside na Bélgica que vai a Inglaterra procurar documentos escritos em Alemão, Francês e Latim. Que mais pode desejar um cidadão do mundo? Que dia real, divirto-me, enquanto atravesso a porta e entro no rio mais firme do tempo, a História.

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