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Uma manhã nunca: Mau tempo manuscrito


Os meus olhos eram uma carruagem, a custo puxada entre a neve e o cansaço. Tantos caminhos manuscritos atravessados, entre páginas de letras montanhosas, desertos em branco, anotações batalhadas. Percorria-as com uma interesse combatente, mas a pedir água para os cavalos cansados da atenção e da dedicação.  
Uma das personagens que persigo tem uma letra esbracejante, como de quem se afogasse num manuscrito; outro uma coisa reviravoltante como uma valsa imaginada por um velho que mal mexe os pés, uma caligrafia tremente e arquejante como uma capela em ruínas; o estilo não ajuda, cheio de contradanças e um gosto pela alusão elegante. Agora umas manchas no canto inferior direito, mas superficiais, porque não chegaram ao outro lado da página, contam-me como entornou o tinteiro enquanto voltava a página, o limpou rapidamente mas não teve o cuidado de retocar o que estava por baixo. Certamente o correio já aguardava à porta e não queria que a carta fosse sem guardar uma cópia.
Do outro lado da página, outra carta, mais tardia no tempo e no ano. Conta-me de parques nevosos, e fontes barrocas geladas. Isso afectou-lhe decerto o estilo, que é curto como se tremesse de frio em casa, por dentro e por fora. A proverbial dança das letras está parada, como se não se quisesse mexer muito por debaixo das cobertas com que se tapa completamente, à excepção da mão escrevente.
Olho lá para fora, agora. Neva. A entrada do edifício está fechada. Não há fontes barrocas mas serve a cafetaria fechada, nova fonte de líquidos reconfortantes. A cidade parece suspensa numa espécie de nuvem. Volto a página do meu computador e noto que carreguei numa tecla, manchando o canto inferior direito da página. Limpo rapidamente mas não sei se apaguei alguma coisa essencial. Faço "undo", uma coisa que os manuscritos não permitem. Mas este "undo" desaparece para sempre, enquanto aquela mancha ficará para sempre a contar-me do correio com pressa, do tinteiro e do frio, e a minha breve distracção valerá nada numa página nenhuma em livro zero, enquanto a sua durará milénios e acordará investigadores ensonados para esta espécie de mau tempo no canal.

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