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Os céus são vales (Edimburgo)

A minha primeira manhã escocesa, nublada e nítida, alta e persistente. Os céus e as montanhas prolongam-se e "proclamam a glória de Deus". Meio montanha, meio vale, a "Royal Mile" e o Castelo parecem ideais mas a realização de uma quimera antiga e muito desejada.
A paisagem rasgou esta sexta-feira santa em que chegámos, onde o silêncio de Deus ecoa. É o único dia no Tempo em que Deus se esvaziou, onde se ouve Deus chorar, suspenso. 
E lá fora este território mar escuro, céu montanha, terra bruma. Passo os olhos para o longe da vista e vejo, com um olho vendo e outro imaginando, montanhas verde acastanhadas e casas de chaminés quase de xisto tão vermelhas que parecem de sangue.
Hoje é um dia de sangue e de água. Por causa desse sangue os rios correm em todas as dimensões do visível e do invisível. Montanha e sulco, esta cidade parece subir a cada passo, música silenciosa e alta. Paisagem e tempo são um só, hoje e aqui. Tantos dias da minha adolescência imaginava a Escócia de Walter Scott, da Sinfonia de Mendelssohn, dos livros de História, e esta cidade de céu montanhoso recebeu-me no dia mais dia no tempo. Como a imaginei.

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