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O pleno verão outonal

Cinquantenaire, 26 graus. O Sábado amanheceu limpo e sem as trovoadas de Maio que acendem o céu e electrificam o solo.
Estendo o meu pano na relva ainda molhada da chuvada de anteontem, pontuada por folhas que o vento trovejante levou. Deito-me no pleno verão outonal.
O quiosque/ bar ocasional ondula bebidas frescas. Três miúdas de oitenta vieram trazer as suas camisinhas floridas ao parque, antes que a tarde arda, e porque não querem perder o chá das cinco provavelmente regado a boa cerveja, Charles Quint em vez de Earl Grey. Carrinhos com crianças, a falar francês, espanhol, neerlandês, polaco. Três turistas andam perdidas e não gostam do alto trânsito de bicicletas e de pessoas deitadas no parque, algumas dormindo, outras deixando o verão colar-se aos corpos.
À minha frente, dois adolescentes, de luvas a reforçar a atitude, treinam boxe um com o outro, às vezes um contra o outro. Ao fundo, ouvem-se palmas e gritos: um grupo de indianos joga cricket com um entusiasmo pós-britânico.
Este oriente no ocidente é reforçado pelas três flamengas que fazem relaxamento ao som do Hare-Krishna. E pelo menino italiano, qual Fangio, que atravessa o parque com a sua nova trotinete. O pai vestiu-o de Índio com pena e tudo, não sei porquê, mas está no Oeste, como eu estou num parque no Norte da Europa que é mais universal que o universo.

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