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José Rodrigues Miguéis em Bruxelas, 1: Léah: jardim

- Léah!
Eu atravessava o parque de bicicleta, um pouco temeroso de ser apanhado na minha infracção, atento a velhinhas de bengalas encanadas e crianças nas primeiras bicicletas, e portanto, como eu, nas primeiras infracções velocípedes. A voz ecoou atrás de mim, indubitável, num nome que eu conhecia escrito.
- Léah!
Era como se a palavra escrita se tornasse ali e realidade, árvore, ramo, folha, raiz - e com ela eu voltasse a uma terra onde cresci.
- Léah, c'est pas juste!
A voz de menina parecia furiosa com Léah, que tal como a palavra que eu conhecia; essa palavra que era uma página, uma personagem, uma história inteira.
Deixei o parque para entrar em Schuman, com um autocarro no meu encalço, e a cabeça toda na Léah real. Não a voz que eu ouvi, de uma cara que não vi, de uma menina que eu não conheço, mas a da Léah que conheço, que é personagem, e que para mim é verdadeira.
Atravessei Schuman com o pensamento todo em Rodrigues Miguéis e na sua Léah, não apenas a do conto, mas a do livro de contos, quase todo ele passado em Bruxelas. Passei pela Place Jourdan, onde sempre o imagino, a tomar uma cerveja no café sujo e térreo no rés-do-chão do prédio onde se encontrava com Léah às escondidas.
O dia ensolarava-se mais, mas não me saía da cabeça a cinza depois do fogo das grandes descrições de Bruxelas, que o mestre Miguéis desenha:
"Pelas janelas entrava a tristeza daquele céu que não lembrava as tintas de nenhum pintor. Corria Novembro, e depois das três da tarde era praticamente noite. Eu estalava de impaciência. Saía, punha-me a correr sob a chuvinha, olhando os cafés cheios de gente  de luz."

- Léah!
Como chamava a dona da pensão pela pobre, comecei a subir o caminho para casa imaginando-me numa pensão belga há trinta anos, onde o cheiro das batatas fritas se entranhasse com o entardecer.

Atravessei a cidade com saudades da Léah verdadeira, a que ele tinha escrito, e mais ainda das páginas de Miguéis: o verdadeiro jardim que tenho nesta cidade.
E porque me chamou, fui lê-la. E aqui nos encontrámos todos. Merci, Léah, c'était juste.

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