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Jardins para o fim dos tempos: a Sonata Nº14 (D. 784) de Schubert

Não é música. Um passo, um som na vidraça, um ruído na rua, um eco na alma: quatro sons uns depois dos outros, que se juntam, sobem juntos, assaltam-me. São reais, e se sim, quais deles, de repente quatro pessoas, de repente uma pergunta, uma acusação. Não é música ainda, é um sentimento fantasma, o passado que volta e se mistura com o futuro. A música acalma-se, constrói-se dos quatro sons, projecta-se no passado e regressa. Quatro pontos cardeais, a atirar a memória para tantos sítios onde não queria voltar. Não é música já: a música nasce de lá porque esses lugares sangram: um passo, um ruído, um som, um bater de porta. 
Não é música: é uma dança de memórias reunidas que tocam como uma melodia. E que voltam, voltam tão inteira e longamente de lugares que foram tanto, mas de lugares que ainda não foram e que doem ainda mais.  
Este é o primeiro andamento da Sonata D. 784. Uma sonata póstuma, publicada após a morte de Schubert. Em que feridas andariam os seus dias para os seus dedos queimarem assim o céu?
O segundo andamento, Andante, parece uma canção para adormecer-se; uma espécie de memória suave usada para tentar cair no sono, ou uma melodia cantada entre o excesso de álcool e a exaustão. Aqui há melodia em toda a parte, mas que se destrói a si mesma.
O terceiro e último andamento nem parece daqui - é uma dança instável, imparável, reviravoltante, apenas parada na sua origem por uma espécie de canção memorativa e suavizante. Mas a reviravolta regressa, passeio por lugares devastados por tormentos interiores. Tem a inquietação do primeiro, que nem é música nem fantasma, e o segundo, vitral partido que deixa entrar o erro todo.
A sonata assusta, atira-me para trás, pede que a compreenda de novo, que não me compreenda de todo. É uma música que é um combate, não sei de onde quem de mim venho, onde fico. O tema do destino com que acaba, os quatro pontos cardeais, devastacionais, de novo. 

Escolher uma versão depende, na verdade, com que tipo de morte prefere morrer: Sofronitzky (Melodya) é mais dramático que a sonata, e o som antigo e soprado da gravação mais torna ainda mais tempestuosa a experiência.
Radu Lupu (Decca), com um som esplêndido, sobe a todos os lugares da sonata com uma inquietação viajante. De longe a versão mais clara, límpida, mas metida nos meandros do que esta música pergunta.
Vale a pena ouvir Kraus (Diapason): a elegante senhora procura verdadeiramente musicalizar os primeiros acordes, mas depois desmantela-os com brilhantismo. Uma espécie de construção desmantelante.
Gilels (Orfeo, reeditada pela Diapason) ataca por todos os lados: o piano deixa de ser instrumento e passa a ser arma. Aqui há um quinto som, o do próprio piano, ferocidade.
Richter e Schubert são um e outro, mas tirando o segundo andamento, não o encontrei ainda aqui; sinto que há pouco caos na sua sonata, ou que se entrevê um pouco no ritmo turbilhonante do seu terceiro andamento. Ou talvez seja eu quem precise de mais caos para o ouvir, mais dez anos desta sonata que eu continuo a sofrer e a não compreender.

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