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Brexit Blues, II: a educação de Theresa May

Fonte: https://dangerousglobe.com

Um dos problemas na actual situação do "Brexit" é Theresa May.
É uma somatório negativo: é o mínimo denominador de um partido que está mais do que partido; some-se a isto o facto de o seu sentido de dever a fazer não querer sair do seu posto pelo seu próprio pé; junte-se ainda o facto de ninguém querer o seu lugar  enquanto decorrem negociações cujo resultado nunca agradará a ninguém.
O governo claramente não tem um plano de saída, não tem ideias, e está paralisado por causa do Brexit.
Depois do referendo, a sua ideia (principal?, única?) era criar uma estratégia de negociação forte com a UE; depois, perante o vazio de ideias, o argumento foi sempre não revelar a estratégia para que os "adversários" (isto é, os outros membros da UE, de que ainda fazia parte) não conhecessem as suas armas. A seguir, eleições antecipadas para ir numa posição de força, que lhe retirou a maioria. E por fim, empurrar com a barriga ao ponto de ter pedido quase por favor que os colegas europeus (leia-se, aqueles que acha serem os seus adversários) permitissem a passagem à segunda fase das negociações - quando na verdade, a nenhum consenso se chegou para além dos cidadãos britânicos na UE e dos da UE no Reino Unido.
Não ser líder é o seu principal problema. May não tem uma vontade, uma visão: se tivesse, teria de a propor, e se fosse rejeitada, clarificaria a situação. Os negociadores europeus queixam-se privada e publicamente que não fazem nenhuma ideia do que pretende. Mas ela sente que está a fazer o que lhe é pedido: "carry on".

Uma chave para perceber isto é a sua educação.
Filha de um pastor como Merkel, acabou por não conseguir sair da educação que recebeu. Foi educada no cumprimento rigoroso do dever, em fazer o que lhe é pedido com firmeza, em servir acima de tudo. A mulher manipuladora que fez tudo para chegar a primeira-ministra (dizem vários) talvez na verdade pensasse que faria um melhor trabalho e servisse todos (não é difícil ser melhor que Cameron, na verdade).  
Vejo Theresa May e penso que se lê claramente nela os piores efeitos de uma educação religiosa: o ter de se mostrar sempre segura e decidida, sobretudo num assunto em que não faz a menor ideia de como sair; e com um partido que afia facas literalmente nas suas costas, dirigindo um governo de acordo parlamentar que saiu de uma asneira sua. O seu sentido de responsabilidade junta-se à sua culpa, e entram em choque - e assim o robot May, o "Maybot" como inventou John Crace, entra em colisão. Não deixa de ser uma piada cósmica que alguém com este perfil e este conflito seja a primeira-ministra escolhida para enfrentar uma situação destas; é como a última vitoriana a enfrentar o fim do mundo de que a rainha Vitoria foi o expoente; uma peça de museu viva a gerir uma catástrofe.
Escrevo isto sem ter nada contra uma educação religiosa - tive uma, sou religioso. A questão não é a educação, é como alguém se re-educa depois dela; a educação recebida é só metade; a outra é feita por cada um. May não percebeu isso. E numa situação de drama pessoal, o universo está claramente a dizer-lhe que deveria reinventar-se a si própria.
Parece que Álvaro de Campos - escocês de formação - já pensava nela. Se me lês, Theresa, faz como o Fernando/ Álvaro e sai de ti mesma.

"Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?"
(Álvaro de Campos, "Tabacaria", http://arquivopessoa.net/textos/163)

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