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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2018

O pleno verão outonal

Cinquantenaire, 26 graus. O Sábado amanheceu limpo e sem as trovoadas de Maio que acendem o céu e electrificam o solo.
Estendo o meu pano na relva ainda molhada da chuvada de anteontem, pontuada por folhas que o vento trovejante levou. Deito-me no pleno verão outonal.
O quiosque/ bar ocasional ondula bebidas frescas. Três miúdas de oitenta vieram trazer as suas camisinhas floridas ao parque, antes que a tarde arda, e porque não querem perder o chá das cinco provavelmente regado a boa cerveja, Charles Quint em vez de Earl Grey. Carrinhos com crianças, a falar francês, espanhol, neerlandês, polaco. Três turistas andam perdidas e não gostam do alto trânsito de bicicletas e de pessoas deitadas no parque, algumas dormindo, outras deixando o verão colar-se aos corpos.
À minha frente, dois adolescentes, de luvas a reforçar a atitude, treinam boxe um com o outro, às vezes um contra o outro. Ao fundo, ouvem-se palmas e gritos: um grupo de indianos joga cricket com um entusiasmo pós-…

Jardins para o fim dos tempos: a Sonata Nº14 (D. 784) de Schubert

Não é música. Um passo, um som na vidraça, um ruído na rua, um eco na alma: quatro sons uns depois dos outros, que se juntam, sobem juntos, assaltam-me. São reais, e se sim, quais deles, de repente quatro pessoas, de repente uma pergunta, uma acusação. Não é música ainda, é um sentimento fantasma, o passado que volta e se mistura com o futuro. A música acalma-se, constrói-se dos quatro sons, projecta-se no passado e regressa. Quatro pontos cardeais, a atirar a memória para tantos sítios onde não queria voltar. Não é música já: a música nasce de lá porque esses lugares sangram: um passo, um ruído, um som, um bater de porta. Não é música: é uma dança de memórias reunidas que tocam como uma melodia. E que voltam, voltam tão inteira e longamente de lugares que foram tanto, mas de lugares que ainda não foram e que doem ainda mais. Este é o primeiro andamento da Sonata D. 784. Uma sonata póstuma, publicada após a morte de Schubert. Em que feridas andariam os seus dias para os seus dedos quei…

Brexit Blues, II: a educação de Theresa May

Um dos problemas na actual situação do "Brexit" é Theresa May. É uma somatório negativo: é o mínimo denominador de um partido que está mais do que partido; some-se a isto o facto de o seu sentido de dever a fazer não querer sair do seu posto pelo seu próprio pé; junte-se ainda o facto de ninguém querer o seu lugar  enquanto decorrem negociações cujo resultado nunca agradará a ninguém. O governo claramente não tem um plano de saída, não tem ideias, e está paralisado por causa do Brexit. Depois do referendo, a sua ideia (principal?, única?) era criar uma estratégia de negociação forte com a UE; depois, perante o vazio de ideias, o argumento foi sempre não revelar a estratégia para que os "adversários" (isto é, os outros membros da UE, de que ainda fazia parte) não conhecessem as suas armas. A seguir, eleições antecipadas para ir numa posição de força, que lhe retirou a maioria. E por fim, empurrar com a barriga ao ponto de ter pedido quase por favor que os c…

Populismo versus Literatura

Uma rua interior, I: o chão que escorre

Um espaço, apenas. Deslizante, antes dos olhos, no lugar que fica entre o peito e a reacção.

É um túnel, primeiro terra, mas o seu bater no ritmo do meu coração torna-o metal. E de repente é o meu peito, a separar veias, artérias, canais, florestas onde havia passado à beira-mar de um rio e o brilho da água andada como um futuro. Um túnel de metal, a correr cortando. E eu continuo sendo, e eu continuo passos e dias e situações inteiras no mundo, mas sou metade.
Assim o chão que escorre. Assim o dia, o momento, em que as certezas se suspendem e apenas o velho inimigo golpe domina do passado ao futuro, do coração ao coração. 
Assim essa rua tão velha e interior, que passa dentro de mim, mas onde aprendi a não viver mais. 
(Tchaikovsky explicou isto, no 1º andamento da sua 6a Sinfonia; eppur si muove).

Os céus são vales (Edimburgo)

A minha primeira manhã escocesa, nublada e nítida, alta e persistente. Os céus e as montanhas prolongam-se e "proclamam a glória de Deus". Meio montanha, meio vale, a "Royal Mile" e o Castelo parecem ideais mas a realização de uma quimera antiga e muito desejada. A paisagem rasgou esta sexta-feira santa em que chegámos, onde o silêncio de Deus ecoa. É o único dia no Tempo em que Deus se esvaziou, onde se ouve Deus chorar, suspenso.  E lá fora este território mar escuro, céu montanha, terra bruma. Passo os olhos para o longe da vista e vejo, com um olho vendo e outro imaginando, montanhas verde acastanhadas e casas de chaminés quase de xisto tão vermelhas que parecem de sangue. Hoje é um dia de sangue e de água. Por causa desse sangue os rios correm em todas as dimensões do visível e do invisível. Montanha e sulco, esta cidade parece subir a cada passo, música silenciosa e alta. Paisagem e tempo são um só, hoje e aqui. Tantos dias da minha adolescência imaginava a …

José Rodrigues Miguéis em Bruxelas, 1: Léah: jardim

- Léah!
Eu atravessava o parque de bicicleta, um pouco temeroso de ser apanhado na minha infracção, atento a velhinhas de bengalas encanadas e crianças nas primeiras bicicletas, e portanto, como eu, nas primeiras infracções velocípedes. A voz ecoou atrás de mim, indubitável, num nome que eu conhecia escrito. - Léah! Era como se a palavra escrita se tornasse ali e realidade, árvore, ramo, folha, raiz - e com ela eu voltasse a uma terra onde cresci. - Léah, c'est pas juste! A voz de menina parecia furiosa com Léah, que tal como a palavra que eu conhecia; essa palavra que era uma página, uma personagem, uma história inteira. Deixei o parque para entrar em Schuman, com um autocarro no meu encalço, e a cabeça toda na Léah real. Não a voz que eu ouvi, de uma cara que não vi, de uma menina que eu não conheço, mas a da Léah que conheço, que é personagem, e que para mim é verdadeira. Atravessei Schuman com o pensamento todo em Rodrigues Miguéis e na sua Léah, não apenas a do conto, mas a d…