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O dom do toque



De pedra à carne, do gelo à vida: este é um filme sobre o dom do toque, sobre aprender a ser tocado, sobre aprender a tocar.
Numa paisagem esquecida por Deus no meio do Yorkshire, um rapaz quase pedra trabalha na quinta da família, entre uma avó ríspida e um pai doente. Não há diálogo entre eles, apenas silêncios surdos, recriminações e ordens. O rapaz – John – trabalha por dois e só recebe silêncio e condenação em troca. Compensa com bebedeiras monumentais no pub e sexo ocasional: “uma família inglesa”, portanto, ou uma tragédia britânica, com as devidas mesuras e sublinhados. O actor principal, Josh O'Connor, faz um papelão: do olhar parado ao corpo fechado, do sotaque à quase brutalidade.
Tudo muda quando um rapaz romeno – Georgi – chega para trabalhar na quinta durante uma semana. Até aí o filme, com crueza e sem excessos, mostra a vida áspera do interior da Grã-Bretanha, uma família representando o pior e o melhor do país: a dedicação, o trabalho do campo, o esforço, a quase penúria, mas também as dores e os afectos silenciados. Isto num cenário desolado e magnífico das Midlands, no meio do meio da Grã-Bretanha. A relação entre Georgi e John começa quase com medo e com preconceito – John chama-lhe cigano várias vezes – e quase começa com uma violação. Mas o que impressiona nesta relação que é quase um Brokeback Moutain melhorado e realmente história de amor – é como é mais feita dos pequenos gestos, das grandes mudanças, do que das grandes cenas (que também tem, das paisagens queimadas ou a perder de vista, ou do sexo, violento e cru até a uma quente intimidade amorosa). O filme queima quando John e Georgi quase lutam, um defender-se do outro: da luta a aprender a tocar, do controlo a aprender a beijar, da ferida ao amor.
Aprender a tocar: é isto que corta neste filme. Como o estrangeiro – perseguido e posto de parte – pode ensinar a alguém sentir-se em casa no mundo e dentro de si próprio. Mas também Jacob e o Anjo: como John acaba por lutar com os seus próprios pensamentos, fantasmas e limites, e aprende a ser ele próprio. O que o amor lhe dá é a sua própria identidade. E não, não é um filme sobre a homossexualidade na Inglaterra rural: é um filme sobre como o amor pode devolver a humanidade. E de como aceitar o outro é parte da própria aceitação - neste caso, até há uma mensagem política no filme, porque aceitar o outro é também aceitar o outro que é um imigrante.
Um dos filmes mais perfeitos dos últimos tempos: uma experiência humana tão total, um filme que ensina a ver.



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