Avançar para o conteúdo principal

Londrices, II: as gémeas

Eram inseparavelmente iguais.
A debulhadora dedicada da inspecção de segurança à entrada da British Library não as separou. Na fila de centenas de pessoas que esperavam entrar, esta pesquisa gota a gota singularizou-as de entre a massa.
Volto a encontrá-las enquanto descem as escadas, uma inclinando-se na outra. Vêm rigorosamente de igual: uma camisola de gola alta de algodão, duas cores horizontais, preto cortando o vermelho da mesma forma inversa como elas eram inseparáveis. As mesmas calças pretas, os mesmos botins castanhos de freira, o mesmíssimo casaco castanho que traziam dobrado no braço esquerdo. Uma fala com o guarda do bengaleiro: "Oh, dear, so you want to trick us?". Não percebi como é que o pobre John, com cara de sono por serem 9:30 de um sábado, as queria enganar, mas respondeu com um sorriso e uma frase simpática. Mas distingo entretanto uma primeira diferença entre as manas: uma é a faladora e a outra a pensadora.
Volto a olhá-las antes de as perder de vista, apenas para ter a certeza de que o corte de cabelo anos 80 pós-muro de Berlim é igual, e está na mesma extensão precisa, caracóis enroladamente símiles e naturais. E que os óculos de metal na cara magra e no nariz afilado são indistinguíveis um do outro.
Entro na sala de leitura e vejo-as, uma conferenciando com a outra perante uma qualquer complicação de leitura de um manuscrito. Falam quase sem fazer barulho. Aposto que procuram antepassados. Há qualquer coisa de amniótico na liquidez de serem juntas, tanto como de uma inexplicável estranheza na sua proximidade.
Saem à precisa hora das 12:30 e fazem grande festa à guarda da sala. "Cheerio, girls, how are you?", responde a anteriormente legente senhora. Só uma fala, a outra olha-a a pedir que o faça, e diz apenas coisas sem relevância. Parece que ofereceram um livro à guarda, que o adorou; mostra-lhes agora que está a ler um policial nórdico repuxante, segundo ela.
Visitadoras sabatinas de bibliotecas, mostram o cartão e seguem direitas para a cantina. Vejo-as a afastarem-se, um pouco trôpegas mas uma ajudando a outra. E fico na dúvida de quem são, o que fazem, como vivem estas duas gotas de água.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…