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Diariamente. Diário, não mente

É desta.
Escrevo diários desde os dezoito anos. São sobretudo um caderno de percursos interiores, coisa que herdei do meu passado religioso, de anotações da vida espiritual. Com o passar dos anos, comecei a ter um caderno onde as questões diárias se misturavam com entradas de procura interior. Depois vieram as investigações, as missões, as viagens, os esforços: os cadernos tinham de tudo, desde notas de reuniões com o contabilista a planos para contos anotados na parte de trás de uma reunião chata, entre o sono e a fuga. Seguiram-se anos em que o caderno era mais uma forma de anotar para o futuro do que outra coisa qualquer. E depois veio a diáspora: e os cadernos voltaram no seu montanhar descritivo do dia, a seguir o princípio que Eugénio de Andrade escreveu com tanta sede: 
"Colhe todo o ouro do dia
na haste mais alta 
da melancolia"

"The Diary-Entry," by August Muller (1836-1885).
Bruxelas fez com que o caderno andasse quase esquecido, ou só usado em viagens, poucas notas. Mas a sua falta deixava marcas: sem aquela luta escrita, espelho e golpe, entre o papel e o silêncio, o interior e a alma, eu era seco e autómato. E precisámos um do outro como duas coisas desconhecidamente metades uma da outra.

Ao longo dos anos, porém, fui sempre um leitor de Diários. Interessava-me a brevidade, mas também a variedade, a fixação no mundo interior, a descrição do exterior ou de um dia; o aspecto de caderno de esboços como o dos pintores, ou a pesquisa para dentro. Fiquei em alguns que me questionavam sempre, como o de Julien Green (mas quem é que resiste a um diário que tem este título no primeiro volume On est si serieux quand on a 18 ans).

Passei os 41. Pensei no que queria dar-me. Olhei para os outros diários que escrevi, incompletos: da doença de alguém, de momentos de passagem. Pensei, é isto: prometo-me escrever todos os dias para o meu diário - um que possa um dia ser público. Em viagem, há um mês, encontrei um livro maravilhoso sobre diários. Devorei-o. E nele encontrei esta citação de John Beadle, que vai abrir este primeiro volume:

'We have our state diurnals, relating to national affairs. Tradesmen keep their shop books. Merchants their account books. Lawyers have their books of pre[c]edents. Physitians have their experiments. Some wary husbands have kept a diary of daily disbursements. Travellers a Journall of all that they have seen and hath befallen them in their way. A Christian that would be more exact hath more need and may reap much more good by such a journal as this. We are all but stewards, factors here, and must give a strict account in that great day to the high Lord of all our wayes, and of all his wayes towards us'.
John Beadle 

A fonte está aqui, mas o que interessa agora não é a fonte mas a sede. E é nela que vou escrever, cada dia, olhando para todos os lugares do mundo onde o mistério atravessa o ar.

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