Avançar para o conteúdo principal

Uma rua de Bruxelas: Avenue de la Joyeuse Entrée

Está escondida: é preciso uma espécie de arqueologia para a desenterrar. E porém está claramente diante dos olhos; é um nome curioso, estranho, para uma rua que é pouco mais agora que a soma de dois túneis que dão para um parque e uma ruela que nos precipita em Schuman.
Que nome glorioso para um quase beco da rotunda mais importante da União Europeia e do parque que ainda hoje celebra os 50 anos da Bélgica, quase 150 anos depois.
Tantas vezes a percorri a pé, que a procurei. E lá estava o significado, tão ligado à figura histórica que me obcecava os nove, dez anos: Carlos V. Como soberano, entrou em Bruxelas por aqui, em 1543. Era a entrada, a grande porta, aquando de uma primeira visita: uma espécie de coração sem o ser, de casamento sem o ser, em que a vila e o seu soberano se encontravam em festa, um reconhecendo o outro.
Encaixada entre Schuman e um jardim, devorada por um túnel, tal como a História: mas mais que nome de rua, uma ponte de significados. Sem Carlos V e sem festa, esta rua talvez não tivesse este nome, talvez tivesse desaparecido, talvez nem houvesse o bairro onde existe e a cidade que a suporta. Uma rua esquecida pode ser o osso que manteve viva uma cidade inteira.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…