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O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso.
Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso universitário, estudar o que quiser, conseguir o emprego que deseja? Estamos todos, pessoas e governos, a colaborar para que a igualdade seja não apenas um desígnio, mas um motor de progresso?
Progredimos na protecção uns dos outros? Criámos estados e instituições que nos protegem? Essas instituições são a soma de nós, para nos proteger, ou estão nas mãos de outros? Lembro sempre os castelos na europa ocidental, feitos pelos nobres como local de protecção contra as invasões (sobretudo dos Vikings) mas logo depois imagem de opressão: aquelas torres rapidamente passaram a significar aos servos da gleba que pertenciam a alguém. É assim com os estados e instituições que criámos? Damos protecção social uns aos outros? Criamos um mundo sem guerras e com um risco menor? Não me parece.
E se olharmos para o tempo? Temos mais tempo, temos tecnologia que no-lo dá, que nos expande inúmeras possibilidades por minuto. Temos a internet, o sonho dos enciclopedistas, informação imediata num segundo. Mas este tempo aumenta a nossa liberdade?

E que tipo de tecnologia criámos? A que nos protege, a que nos segura, a que nos dá segurança, a que melhora o nosso dia-a-dia?
A tecnologia só é progresso se aumenta a igualdade e a liberdade - uma liberdade que dá conhecimento, sabedoria, e por isso, respeito pela liberdade do outro.
E temos mais tempo para aprofundar, para reflectir, para estarmos com os outros? Não: é uma tecnologia de rapidez, de ausência, de dependência. A tecnologia que temos, hoje, faz exactamente o oposto de criar liberdade. E o que acabámos de saber sobre o uso de informação recolhida no Facebook é gritante (como se pode ler neste artigo): uma empresa inglesa trabalhou para a Breitbart de Steve Bannon (ex-chefe de gabinete de Trump) para estudar o perfil de 50 milhões de pessoas a partir dos seus "likes" no Facebook, e a partir daí criar sites e informação falsa para os manipular. Christopher Wylie, o "whistleblower" que deu a cara ao "The Observer" conta que esta estratégia põe em prática a teoria de Bannon: para mudar a política deve mudar-se a cultura, e para mudar-se a cultura exploram-se os medos subconscientes das pessoas; e a informação recolhida das "apps" do Facebook é pasto excelente para criar uma arma. Um simples clique numa "app" com um teste aparentemente inofensivo e a informação está recolhida - e passamos, na placidez de um passeio pelo Facebook, de caçadores de diversões a diversão de caçadores.

Esta revelação aterrorizou-me. Nunca fomos tão longe na história humana no uso de informação pessoal para a criação de armas políticas, para a manipulação de pessoas e de eleições. A confirmarem-se as piores expectativas, daqui nasceram os pontos de diferença que permitiram (e permitem) Trump e o Brexit.
Esta revelação fez-me pensar: o que posso fazer? Deixar o Facebook? Considerar tudoo que faço na internet? Todos os hábitos recém-adquiridos e que simplificam a vida, agora tornados uma dúvida, um receio. A entrevista a Christopher Wylie termina com uma pergunta: em quem é que confia? Ele tem dificuldade, chega a dizer "meu Deus, não quero responder que não confio em ninguém", para acabar por dizer que precisamos de uma certa dose de cepticismo em tudo o que fazemos e com quem quer que falemos.

O Facebook é progresso? Um smartphone é progresso? Ou é uma espécie de nevoeiro de entretenimento, de criação de cegueira, que nos corta do essencial?
Isto leva-me à pergunta seguinte - para uma crónica próxima: rejeitar usar um smartphone, rejeitar usar uma rede social, não é isso lutar pelo progresso? Pelo progresso que eu quero escolher, que me cria liberdade, e não pelo que me é imposto?

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