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Londrices, I: Londres ocupada pela neve


O branco omnipotente. E por sua causa, um alerta vermelho. Londres está obnubilada num manto térreo e aéreo. A Escócia está congelada, comboios e auto-estradas suspensas como se uma fada invernal tivesse transformado numa estátua de gelo a nação acima da muralha de Adriano. Também em Londres, uma outra senhora gélida não desdenharia decerto congelar este presente para poder olhá-lo de todos os cantos e sair por cima, ou por baixo, rastejante, se for essa afinal a sua natureza: May, mas não há nada de Maio na sua forma de ser, nem primaveril nem libertadora. Também nesta neve a senhora tenta sair do seu palácio de gelo, rodeada por servos de uma simpatia falsa, cortante, e de movimentos limitados por um processo de Brexit que congela a cada passo. Um iceberg dirigido por uma desastrada rainha má - era uma boa história infantil se não fosse má.
Chego com atraso. Vim por baixo de água, prévia ao gelo. As plataformas de comboio na ilha estão todas geladas. Tudo está atrasado ou tudo pode ser suspenso, adiado, atrasado. Dizem-me na biblioteca: “ouça os avisos, poderemos fechar mais cedo por causa da chuva”. Vivi na Alemanha: isto não é neve, é um divertimento de inverno tardio. Sorrio dos cuidados, dos excessos, dos anúncios, que são tão britânicos; não são preocupação, não são regulação, são uma espécie de cortesia mas também de cuidado medindo problemas eventuais. 
A praça de entrada da British Library está fechada por causa do gelo; um exagero. Uma senhora diz a outra, as duas avançadamente pelos oitenta: “tens de andar como um pinguim, pernas abertas para não caíres”. Os jornais proclamam “the beast from the east”. Na televisão, Putin anuncia uma arma nuclear poderosíssima. Aguarda-se a todo o momento o discurso de May sobre o que vai fazer com a fronteira entre as Irlandas – está encostada à parede pelo seu partido, pelo seus aliados norte-irlandeses que lhe dão uma maioria coxa no parlamento, e pela Comissão Europeia, não há saída. Começa a nevar enquanto bebo um Earl Grey (ajuda-me sempre a parar o dia e a ver o mundo de outro ângulo). E começa a nevar contra a janela da loja onde vejo a televisão. E neva agora dentro da televisão, e dentro deste país. O “Brexit” só trouxe caos, divisão, instabilidade. May a sair de Downing Street a nevar, e de novo Putin: Londres congelada devido à “beast from the east”.

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