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"le plat pays"

"A paisagem entre Bruxelas e Gent não tem grande interesse", disseram-me várias pessoas, felizes por isso permitir uma meia hora de leitura mais feroz.  Quando se ouve a frase, igual para "entre Bruxelas e Antuérpia", "entre Bruxelas e Liège", é porque ou anda muita gente a ler muito, ou há muito para ver, mas está escondido. É esse o segredo da Bélgica: está cheia de tesouros, mas estão escondidos, precisam de descobridores: um recanto escondido atrás de três portas, uma escada que dá para nenhures, uma vista apertadamente magnífica entre dois edifícios enormes, um café do tamanho de uma caixa de sapatos com a melhor cerveja artesanal imaginável. Uma amiga belga dizia-me: "todos os povos do mundo passaram por aqui, têm de passar por aqui". Estou no comboio e olho para o bilhete de dez viagens: marcam-me sempre a ida, nunca a volta; no metro, só precisamos do cartão para entrar, nunca para sair. A papelada enorme que foi mudar-me para aqui. Sim, é verdade. Mas percebo porquê: é um país especial, profundo e complexo, um país-ponte: uns só olham para a travessia, mas esta só é possível porque há pilares.
Plano, igual, somnífero, o relevo lá fora? Eu que adoro andar de comboio, porque a paisagem se torna respiração, filme, sangue, estava habituado a não ver.
Há dias decidi olhar lá para fora, olhos nos olhos. O que está escondido, o que posso ver no que não posso ver?
"Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir"
Canta Jacques Brel no "plat pays": é o que vemos primeiro, a chuva, a repetição. Mas mesmo os dias em Bruxelas não são iguais: os dias são tão repetidos que têm de ser cortados a meio, como uma fruta escondida; a espuma das noites cortadas com uma faca, como se faz com uma boa cerveja a pressão.

"Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu
Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité
E mesmo os rios se perdem, e neles o tempo, e neles os nossos olhos. A paisagem abria-se, pequenas florestas sobre lagos onde o céu subia, igrejas altas e terrosas como uma espécie de montanha ("Avec des cathédrales pour uniques montagnes"), e baldios extensos como sede do mar.
 
"Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner" 
O comboio passava depressa, a chuva pintava as janelas, torres velhas de séculos eram escadas inesperadas, e o ruído de tantas línguas a fazer a banda sonora do comboio. Lavo os olhos e peço desculpa à paisagem. Ao céu cinzento, porque generoso e criador.

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