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Dvorák, Rostropovich, Londres, 1968

Quando a música pára o tempo e muda a História.
Praga, 21 de Agosto de 1968: os tanques soviéticos invadem Praga, pondo fim ao regime reformista de Dubcek.
Nesse dia, a Orquestra da URSS, dirigida por Evgeny Svetlanov, tocaria no Royal Albert Hall, acompanhando o então "poster boy" da política cultural soviética: o violoncelista Mstislav Rostropovich. Rapidamente a orquestra e o concerto ficam na mira dos manifestantes, que os recebem com fruta e tomates podres. A orquestra mal consegue começar. Um homem levanta-se e mostra o bilhete a Rostropovich e diz-lhe: "vou sair do teu concerto".
O que iam tocar?
O concerto para violoncelo de Dvorák. Ironia do destino: uma peça checa quando a Checoslováquia estava a ser invadida. Ironia do destino, ou a História a cruzar-se, música, interpretação e sofrimento, a pedir que fosse cumprida? 
A peça era uma especialidade de Rostropovich, a cidade biograficamente importante para ele, onde conhecera a mulher, onde gravara a sua primeira versão do concerto. Tudo nele devia convocar-se. E ele só tinha uma arma: uma voz perante a força opressora do seu país.
A orquestra começa, a medo, um pouco inseguramente. Quem conhece as versões tão particulares de Svetlanov, que ocupa o texto musical dramaticamente, com amplitude de som e de propósito, tornando o espaço intenso, estranha esta entrada orquestral rápida, tentativa.
Mas Rostropovich começa a tocar. E a partir daí tudo muda.
Há um grito de revolta, um grunhido de fúria, um choro: a mulher de Rostropovich conta mesmo que ele estava a chorar. Mesmo um leigo musical ouve esta interpretação e é atingido pela diferença abissal entre a orquestra e este violoncelo de protesto.
No final de uma versão devastadora, entre palmas, Rostropovich levanta-se, pega na partitura da peça que estava na estante do maestro Svetlanov, aponta para o nome de Dvorák, e mostra-a ao público, como se dissesse: "estamos juntos".
Se o gesto não chegasse, pouco depois, Rostropovich cortou com a URSS.
E o Concerto de Dvorák tornou-se mais do que ele mesmo: tornou-se uma canção de combate, protesto, choro, grito, voo. E uma pedra na engrenagem dos tanques de Praga. Nas cordas de Rostropovich tocando a música de um checo, enquanto a primavera de Praga era abafada, começou a cair a URSS.

(O extraordinário concerto pode ser ouvido neste vídeo; reproduzo também a capa do álbum, esgotadíssimo há anos, mas que todos os homens e mulheres de espírito livre deveriam ter bem junto ao livre-arbítrio).

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