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Brexit blues, I: Brittania biting itself


O "Brexit" está prestes a tornar-se no evento mais dramático da história britânica desde Oliver Cromwell. As consequências actuais mas sobretudo futuras são imensas.
As fracturas do Reino Unido estão completamente à vista: um país que é uma união de quatro nações que não o é na verdade - é impressionante pensarmos que só houve governos regionais com parlamentos próprios em 1999 (!); onde os efeitos de uma invasão no ano 1066 demoraram séculos a sarar e deixaram ainda uma divisão. A Inglaterra impôs-se sempre sobre os outros. Curiosamente, a Inglaterra não tem um parlamento próprio - é o do Reino Unido, e isso já de si quer dizer alguma coisa. As fracturas aumentam com a presença imensa de uma comunidade imigrante muito diversa, à qual a mais recente aquisição são os imigrantes da UE, geralmente com formação superior.
Durante a sua história como país independente, a Inglaterra não teve praticamente de negociar coisa alguma que não fosse a seu favor. A partir do fim da segunda guerra viu o seu poder mundial diminuir dramaticamente, ao ponto de ter fugido literalmente de confusões que armou e criou, como do Iraque, país que desenhou para poder gerir e aproveitar-se a seu bel-prazer. De Portugal sempre fez o que quis, e se existe como país é porque a Inglaterra precisava sempre de um contra-peso a França e Espanha, e a Holanda ou a Dinamarca tinham agendas próprias e interesses conflituais. A única pessoa que fez frente aos Ingleses com uma política pensada do início ao fim foi o Marquês de Pombal - que chegou, como Embaixador em Londres, a informar o então primeiro-ministro inglês Walpole que os portos portugueses estavam fechados à navegação inglesa.
O meu ponto é: pede-se a um país que sempre se comportou como uma potência mundial que agora tenha de ceder numa negociação com um bloco unido. Nem a sua pata sobre a Irlanda consegue algum poder, pelo contrário, morde-se a si própria, explode-lhe na cara. A negociação do "Brexit" está a ser para os britânicos, mas sobretudo para os ingleses, uma revelação dramática, uma anagnorisis: está a mostrar-lhes que o seu valor simbólico é praticamente nenhum, e que essa quebra de valor é também uma quebra de valor real. E são pura e simplesmente incapazes de o ver. Note-se a emergência de símbolos nacionais para puxar pelo orgulho. Num pequeno livro brilhante, The Ministry of nostalgia, Owen Hatherley notou isso mesmo. O embaixador alemão no Reino Unido tocou noutro ponto - a mitologização da segunda guerra mundial está a alimentar o euroceptismo britânico (pode ler-se aqui) - não longe do "orgulhosamente sós" que os portugueses conhecem tão bem.

Voltando atrás:  tudo começou com uma divisão dentro do partido conservador, nunca muito satisfeito com o poder de Bruxelas em regular acima da lei britânica. Nenhum outro país, na história da UE, conseguiu tantas e tamanhas excepções aos tratados e leis aprovados por todos. Quando Cameron decide marcar o referendo, como arma para ganhar as eleições de 2015, consegue da UE tantas excepções que eram, na verdade, verdadeiras amputações aos tratados. Na altura perguntei a vários funcionários europeus aqui em Bruxelas, e a reacção unânime foi: "mais uma excepção; estamos fartos disto". E o resultado do referendo foi o oposto do esperado: sair.
Pois a divisão dentro do partido conservador acabou não só por não se acalmar, mas por se agudizar. Theresa May ganhou o lugar que ambicionava, mas foi sol de pouca dura. Nomear alguém que pacientemente construiu uma imagem de dura para gerir um processo onde delicadeza, paciência e consenso é necessário é como pôr um elefante numa loja de porcelana. 

É impressionante e dramático perceber uma coisa: que não havia estratégia de saída pensado pelos que queriam sair. Mais: que não havia estratégia de saída no dia seguinte ao referendo, e que continuou a não existir durante vinte meses, até ao inqualificável discurso de dia 3 de Março. Isto já não é um erro: é um crime. É um crime de má-gestão, de lesão do estado.

Desde que o "Brexit" começou, o Reino Unido passou da economia que crescia mais dentro da UE para a que cresce menos. Já foi ultrapassada por França, e isto ainda não acabou. A situação irlandesa - fronteira ou não - é explosiva, e não há nenhuma ideia de como sair dela. O empurrar com a barriga como estratégia tem uma razão para existir: pensa-se que o poder simbólico da Brittania vai resolver tudo; ou a imensa frota; ou o Império. E o Reino Unido e os seus sonhos de passado escancaram-se na fronteira entre as Irlandas a cada dia que passa, uma pedra do muro que é uma pedra no sapato do governo inglês porque depende de um partido-grupúsculo irlandês que lhe permite ter uma maioria. Uma pedra que se vai atirar contra si mesma. No dia em que morra um irlandês em confrontos na Irlanda do Norte é o primeiro dia do fim do Reino Unido - esperemos que nenhum dos dois chegue.

PS: Escrevo frequentemente sobre o Reino Unido por amor. Não por desdém ou muito menos por uma espécie estranha de xenofobia. Escrevo ao ler a situação e acompanhá-la, por sofrê-la, por tanto gostar deste país e ter laços afectivos e familiares, e ver dia a dia como um país se pode suicidar desta forma.

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