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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2018

Uma manhã nunca, V: prelúdio adeus

Ninguém nos disse, mas ambos sabíamos que era a última vez. A roupa no chão, as mãos arrancadas uma à outra, as bocas repetidas, usadas, mas sedentas.
- Põe música - disse-lhe. Havia gente no quarto ao lado, havia que mergulhar os nossos ruídos em música, havia que esconder-nos dentro de música para a dor que haveria depois.
Fomos lentos, com o conhecimento mútuo de velhos amantes. Fomos rápidos, porque era uma despedida e as mãos já doíam da ausência.
A camisa verde no chão, as nossas sombras na parede, o calor cortante de uma primavera tão cortadamente inverno.
E enquanto nos misturávamos ao som desta música, acordei por uns segundos, como se me olhasse de hoje para então. "E vi, verdadeiramente visto", dois amantes a dançarem dentro de um piano, a despedirem-se enquanto a música desaparecia, e um homem, vinte anos depois. Ele mesmo piano, a música memória, a memória um sentimento perdido há tantas melodias atrás.

Dvorák, Rostropovich, Londres, 1968

Quando a música pára o tempo e muda a História. Praga, 21 de Agosto de 1968: os tanques soviéticos invadem Praga, pondo fim ao regime reformista de Dubcek. Nesse dia, a Orquestra da URSS, dirigida por Evgeny Svetlanov, tocaria no Royal Albert Hall, acompanhando o então "poster boy" da política cultural soviética: o violoncelista Mstislav Rostropovich. Rapidamente a orquestra e o concerto ficam na mira dos manifestantes, que os recebem com fruta e tomates podres. A orquestra mal consegue começar. Um homem levanta-se e mostra o bilhete a Rostropovich e diz-lhe: "vou sair do teu concerto". O que iam tocar? O concerto para violoncelo de Dvorák. Ironia do destino: uma peça checa quando a Checoslováquia estava a ser invadida. Ironia do destino, ou a História a cruzar-se, música, interpretação e sofrimento, a pedir que fosse cumprida?  A peça era uma especialidade de Rostropovich, a cidade biograficamente importante para ele, onde conhecera a mulher, onde gravara …

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

Uma rua de Bruxelas: Avenue de la Joyeuse Entrée

Está escondida: é preciso uma espécie de arqueologia para a desenterrar. E porém está claramente diante dos olhos; é um nome curioso, estranho, para uma rua que é pouco mais agora que a soma de dois túneis que dão para um parque e uma ruela que nos precipita em Schuman. Que nome glorioso para um quase beco da rotunda mais importante da União Europeia e do parque que ainda hoje celebra os 50 anos da Bélgica, quase 150 anos depois. Tantas vezes a percorri a pé, que a procurei. E lá estava o significado, tão ligado à figura histórica que me obcecava os nove, dez anos: Carlos V. Como soberano, entrou em Bruxelas por aqui, em 1543. Era a entrada, a grande porta, aquando de uma primeira visita: uma espécie de coração sem o ser, de casamento sem o ser, em que a vila e o seu soberano se encontravam em festa, um reconhecendo o outro. Encaixada entre Schuman e um jardim, devorada por um túnel, tal como a História: mas mais que nome de rua, uma ponte de significados. Sem Carlos V e sem festa, e…

Brexit blues, I: Brittania biting itself

O "Brexit" está prestes a tornar-se no evento mais dramático da história britânica desde Oliver Cromwell. As consequências actuais mas sobretudo futuras são imensas. As fracturas do Reino Unido estão completamente à vista: um país que é uma união de quatro nações que não o é na verdade - é impressionante pensarmos que só houve governos regionais com parlamentos próprios em 1999 (!); onde os efeitos de uma invasão no ano 1066 demoraram séculos a sarar e deixaram ainda uma divisão. A Inglaterra impôs-se sempre sobre os outros. Curiosamente, a Inglaterra não tem um parlamento próprio - é o do Reino Unido, e isso já de si quer dizer alguma coisa. As fracturas aumentam com a presença imensa de uma comunidade imigrante muito diversa, à qual a mais recente aquisição são os imigrantes da UE, geralmente com formação superior. Durante a sua história como país independente, a Inglaterra não teve praticamente de negociar coisa alguma que não fosse a seu favor. A partir do fim da segunda g…

"le plat pays"

"A paisagem entre Bruxelas e Gent não tem grande interesse", disseram-me várias pessoas, felizes por isso permitir uma meia hora de leitura mais feroz.  Quando se ouve a frase, igual para "entre Bruxelas e Antuérpia", "entre Bruxelas e Liège", é porque ou anda muita gente a ler muito, ou há muito para ver, mas está escondido. É esse o segredo da Bélgica: está cheia de tesouros, mas estão escondidos, precisam de descobridores: um recanto escondido atrás de três portas, uma escada que dá para nenhures, uma vista apertadamente magnífica entre dois edifícios enormes, um café do tamanho de uma caixa de sapatos com a melhor cerveja artesanal imaginável. Uma amiga belga dizia-me: "todos os povos do mundo passaram por aqui, têm de passar por aqui". Estou no comboio e olho para o bilhete de dez viagens: marcam-me sempre a ida, nunca a volta; no metro, só precisamos do cartão para entrar, nunca para sair. A papelada enorme que foi mudar-me para aqui. Sim…

Londrices, I: Londres ocupada pela neve