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Vira o disco e não toca o mesmo

"La Boite à Musique" em Bruxelas, uma das
minhas lojas de discos preferidas
Continuo a comprar CDs, a seguir as saídas de novos álbuns e a frequentar lojas de discos - as poucas que ainda existem. Esse é um dos maiores prazeres da vida, para mim, que nenhuma loja online ou sistema de downloads poderá alguma vez compensar. Sobre isso falarei em breve.

Mas não passei à lógica do download por vários motivos.
Em primeiro lugar, porque gosto do objecto CD, gosto da ideia de um album que posso procurar nas estantes, abrir, ler, e cuidar. E porque tenho prazer em ter esse objecto. Sou proprietário dele, como a sua existência física me comprova a cada instante. Tem uma história comigo, como tantos outros objectos que me acompanham pelo meu trajecto pelo mundo e pelos dias; crescemos juntos, envelhecemos juntos, subimos juntos.
Os discos ficam a fazer parte de uma biblioteca física, minha. Posso aceder-lhes quando quiser. Não através de uma plataforma onde de facto não os possuo, mas apenas tenho um direito de utilização.

Mas, por outro lado, a sua existência física relembra-me também que contribuí activamente para que os artistas e quem os defende sejam justamente pagos. O que um artista recebe com a venda do CD é consideravelmente maior do que as audições em plataformas.
Para além disso, há uma questão cada vez mais contemporânea que surge na minha cabeça sempre que compro um CD. Vou ouvi-lo na minha aparelhagem, e cada escuta que faço é determinada por mim e interessa apenas a mim. Diferentemente do que se passa nas plataformas de download, os meus hábitos de escuta não vão ser usados como dados sobre os meus consumos, para aumentar o conhecimento de companhias online sobre mim (faço, aliás, o mesmo com as compras, procurando pagar tudo com dinheiro).

Sinto-me com duzentos anos ao escrever este texto. E por isso, um argumento com quatrocentos: só há bem pouco tempo os historiadores começaram a dar relevância a um facto curioso: é que apesar de Guttenberg ter inventado a imprensa em 1455, a cópia e circulação manuscrita continuou até bem tarde no século XVII e entrando pelo século XVIII. Mais: era precisamente uma forma de circulação de informação que fugia ao controlo (da Igreja e do Estado, que aprovavam os livros). Por outro lado, há diversos livros impressos no século XV dos quais não temos uma única cópia impressa. Mas existem cópias manuscritas.
Não deixa de ser curioso que pela primeira vez este ano o número de CDs vendidos esteja a subir (pode ler-se aqui, entre outros exemplos), acompanhando o do vinyl, que todos declararam morto há vinte anos. Já nem falo dos livros: quando acabei o meu curso em 2000, jurava-se como certo e sabido que daí a uma década já não haveria livros...
Com duzentos anos que eu tenha, uma coisa é certa: no evento de uma guerra, que não será como temos conhecido até aqui, quer os dados de uso, quer as plataformas onde ouvimos música serão as primeiras armas e ou as primeiras vítimas, a ser usadas contra nós ou a ser suprimidas. Não acontecerá o mesmo com o meu CD.

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