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Uma manhã nunca, III: de malas para o futuro

O sol batia no futuro. E o futuro estava fechado em duas malas. Não fazia sentido falar de partir nem distância, porque não havia mais nada no espaço nem no coração que isso mesmo: partir. O sol do meio-dia ardia as formas das duas malas prontas no chão da sala. Quando morrer, vou lembrar-me desta imagem antes de sair de mim, pensei aos dezoito anos e tanto que hoje me lembro da minha morte futura e desta manhã da mesma forma.
Tudo era partida e largada - e não sabia eu, fugida - porque verdadeiramente não se parte quando se foge. E quando se foge, um espelho maior expande-se do coração às vísceras, e não há mais nada a fazer que nascer ou morrer. Mas eu não sabia isso naquele setembro de 1995 que ficaria para sempre no meu calendário como uma espécie de luz desafiante, esclarecedora.
Disse adeus às coisas todas; e queria dizer adeus a mim mesmo. Mas isso não é possível sem viajar na mentira. Parti, tentei dizer adeus a mim mesmo: àquela luz ninguém se poderia perder. E as duas malas nunca mais me deixaram. Viajar-me e encontrar-me, perder-me e transformar-me em vida para os outros - talvez essa a dupla bagagem que carrego e perco, que vivo e multiplico.
O sol ainda bate no futuro.

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