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Uma manhã nunca, II: Bergmansstrasse

Ainda guardo a fotografia.
É tão contrária à memória que tenho. Uma noite infindável de encontros, planos sobrepostos sobre abismos e luzes de mãos dadas.
Na fotografia, uma mão sobre o sorriso, os olhos fechados. Uma fuga, uma fuga. Saí depois para um lugar de onde nunca mais fomos os mesmos. Uma semana escrita em silêncio. A minha amiga U. dizia-me: "não responder é mandar silêncio". 
Soube depois que sim, que a fotografia revelava uma mentira, que havia outra pessoa, que tudo aquilo não tinha passado de um divertimento curioso.
Não há sorriso, quase não há olhos. Mas para mim, todas as vezes que vi aquela fotografia, houve também um percurso. Dizia-me: não tirarei os olhos desta fotografia até que eu passe da dor para a recordação de tudo o que se passou antes.
Fazer de todas as manhãs de dor uma escada. Mehr licht, disse Goethe antes de morrer: mais luz.

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