Avançar para o conteúdo principal

Uma floresta pelo correio

O melhor momento do mês chega pelo correio: o novo exemplar da revista "Diapason". Nesse dia, o tempo pára: eu volto à minha adolescência romântica, onde o dia são bosques de sons, recordações afundadas e elevadas entre música, ficar perdido ou achado por uma peça musical destruir a estrutura do dia nas suas fundações.
Mas pára não apenas porque uma parte de mim, passado mas eterna, emerge; é também ficar mergulhado apenas em música, na descoberta de obras novas ou sobretudo na redescoberta de obras que conheço bem a partir de novas versões.
A "Diapason" não traz apenas críticas aos discos novos, e põe-me a fazer contas entre o "não devia", "não posso" e "não passo", involuntariamente caindo mais para o último do que os primeiros. Traz também um disco gratuito com selecções dos melhores álbuns criticados (os que ganharam o elogio unânime dos críticos, o "Diapason d'Or"), e desde 2012 um disco feito pela redacção, reeditando clássicos perdidos.
Há também uma "obra do mês", com a discografia comparada e analisada; muitas vezes irrito-me com escolhas que me parecem erradas, outras vezes concordo e descubro.

Mas a emoção que tenho a cada número que chega é esta: a sensação de que um bosque de sons novos, de descoberta de paisagens antigas por um novo ângulo, de viagens inesperadas por uma espécie de mar; é como se uma floresta chegasse pelo correio. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…