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Uma floresta pelo correio

O melhor momento do mês chega pelo correio: o novo exemplar da revista "Diapason". Nesse dia, o tempo pára: eu volto à minha adolescência romântica, onde o dia são bosques de sons, recordações afundadas e elevadas entre música, ficar perdido ou achado por uma peça musical destruir a estrutura do dia nas suas fundações.
Mas pára não apenas porque uma parte de mim, passado mas eterna, emerge; é também ficar mergulhado apenas em música, na descoberta de obras novas ou sobretudo na redescoberta de obras que conheço bem a partir de novas versões.
A "Diapason" não traz apenas críticas aos discos novos, e põe-me a fazer contas entre o "não devia", "não posso" e "não passo", involuntariamente caindo mais para o último do que os primeiros. Traz também um disco gratuito com selecções dos melhores álbuns criticados (os que ganharam o elogio unânime dos críticos, o "Diapason d'Or"), e desde 2012 um disco feito pela redacção, reeditando clássicos perdidos.
Há também uma "obra do mês", com a discografia comparada e analisada; muitas vezes irrito-me com escolhas que me parecem erradas, outras vezes concordo e descubro.

Mas a emoção que tenho a cada número que chega é esta: a sensação de que um bosque de sons novos, de descoberta de paisagens antigas por um novo ângulo, de viagens inesperadas por uma espécie de mar; é como se uma floresta chegasse pelo correio. 

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