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Jardins para o fim dos tempos: Sinfonia Nº1 de Walton


"Um coração instável sugando a cada passo", diz um poema de biofagia. O verso parece ter sido escrito para esta música, dança fantasmática e divisiva.
O primeiro andamento começa com uma entrada progressiva, um instrumento de cada vez, para criar uma tensão que Walton aguenta com intensidade psicológica até ao final. As cordas são tormentos, os sopros montanhas interiores que crescem a cada passo, os tímbales um coração esmagado pela sua sorte. Abismos de cordas, tímbales e metais levantam-se numa espécie de ondas, uma paisagem devastada pela dor. O tema recursivo das cordas regressa como um tema do destino ou um tormento que por um lado assusta, por outro lado reforça e supera.
Ouvir esta música pela primeira vez foi uma dupla surpresa: porque nunca a ouvi antes? Walton estava para mim relegado para a categoria dos compositores britânicos do século XX escolares e à sombra do génio de Benjamin Britten. Nada mais errado. Lembrava-me também dos retratos dele, fotografados por Auerbach no álbum que comprei com um dos meus primeiros ordenados, 19 anos. Um tesouro que folheei vezes tantas, conhecendo três gerações de músicos que visitavam Londres nos anos 60-70 para gravar na EMI. Walton aparece lá, divertido mas imperial, distante. Como é que não procurei a sua música, não compreendo.
Se o primeiro andamento salta e esmaga, personalíssimo entre influências de Bruckner e Sibelius, o Scherzo seguinte é acre e ogre, um humor ácido que parece conversar com Prokofiev ao mesmo tempo que revela um humor tão britânico na escrita elegante e cheia de segundos sentidos.
O "Adagio" respira e chora. É uma paisagem romântica devastada por uma dor de recusa e de abandono. Walton não conseguiu compor mais depois disto; chorava uma paixão que acabou neste momento. A primeira versão da sinfonia acabava aqui, e foi assim estreada; mais tarde Walton acabou o último andamento, um jogo de sombras e de riscos, heróico e revelatório, tão rico como os andamentos anteriores mas já prefigurando o que seria o mundo da Sinfonia Nº2.

Ouvi várias versões antes de encontrar a que me parece conter a mais explosiva e inquietante versão de todas.
Walton por si mesmo é uma revelação; sobretudo pelo ambiente pesado e rochoso que consegue desenhar. Mas uma versão pelo próprio compositor, malgré tout, vale por si mesma e é um campeonato à parte. Pelo menos dá-nos acesso à visão íntima do compositor, que não é de todo a verdadeira, mas uma versão mais (EMI, Philarmonia).
A versão de André Previn é considerada um clássico absoluto (a da RCA com a LSO, não a posterior com a Royal Philarmonic). Se o "Scherzo" é magnífico, tudo o resto, apesar de brilhantemente interpretado, me parece brando. Não começaria por aqui.

Não ouvi ainda outras versões (Boult, Handley, Rattle), porque gosto de ser espantado por uma versão de uma obra de que gosto. Guardo-as para mais tarde.
A surpresa está nem duas versões fora do comum: em primeiro lugar, o recentíssimo disco de Kirill Karabits com a Bornemouth Orchestra (Onyx, 2017). Intensidade, respiração, velocidade, paisagens atravessadas por um modernismo torturado, devastações sonoras. Walton nunca foi tão universal mas tão britânico ao mesmo tempo, e a sinfonia surge claramente como uma das grandes peças sinfónicas do século XX. 
Karabits e a sua orquestra apresentam a música aqui, com excertos e algumas luzes sobre a criação e a natureza da obra. A ver.
Sir Charles Mackerras (EMI) oferece uma versão inextinguível. Os metais são obsessivos, criam paisagens em andamento, instalam uma tensão cortante. Além disso, o seu sopro cortado, stacatto, quase bruitista, bem como a sua potência sonora, fazem lembrar as "brass bands" tão típicas da região de Lancaster natal de Walton. E assim criam um segundo significado: o desta sinfonia, sobretudo no primeiro andamento, como uma luta entre o determinismo de onde vimos e de como nos pode instalar, e a violência de o rejeitar. Tornam a sinfonia mais pessoal, e ao mesmo tempo mais violenta, de uma intensidade ontológica da qual é impossível desligar-se.

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