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Crôuvicas de Bruxelas: o motorista apaixonado



Seis da manhã, chove e venta, as gatas mal me deixaram sair de casa com a mala, quase tropeço na bicicleta guardada à porta; não sei onde ponho os pés, entre a mala, os degraus, os gatos, as rodas da bicicleta, e a alma pesada de partir. Desço as escadas o mais devagar possível para não acordar todos os meus simpáticos vizinhos, que vivem como plumas que não se ouvem nem sentem nas suas vidas. 
A porta grande do prédio abre mal desde que a neve de Novembro, somada ao pó darenovação da casa ao lado, intrometeram-se nos ossos da porta, num reumático invernal e empenado. Mas abri-a com a violência que pude e saí para a rua esventalhada por um chuvisco matinal.
O carro já esperava por mim. "Olá, sou o H.", disse. Estava bem-disposto mas começou logo a espirrar. "Isso não está bom", disse-lhe em Francês. Não percebeu entre espirros, e lá me contou que teve de correr para ir buscar o carro, molhou o pé num poça, apanhou chuva na cabeça e já está o caldo entornado para ficar com gripe. "E só como fruta no verão, sabe, de maneira que apanho isto tudo". Lá lhe dei os meus conselhos, como os bons belgas fazem sempre, do que tomo e faço para melhorar, e as vitaminas que compro na Alemanha. "Isso é uma bela ideia, bela ideia". Tomou notas.
O carro seguia, noite fechada ainda apesar de ser manhã. Ele perguntou para onde eu ia. "Londres", repetiu a minha pergunta, "pela Gare du Midi?". Sim, o comboio debaixo do canal da mancha, o Eurostar. "Ah, Londres! Eu queria tanto lá levar a minha mulher!". E começou a contar-me: há anos que a queria levar, uma viagem romântica só os dois, o Tamisa de barco, o "Mamma Mia" ou "Os Miseráveis", jantar em Londres antiga à luz das velas. "O problema, sabe, é que eu não consigo falar inglês". Mas não importa, continuava, que por ela faria os esforços todos. "A vida passa, e não celebramos o que é importante o suficiente. Para mim, se tiver de trabalhar umas horas mais por dia para lhe dar isso a ela, vale a pena". Lá lhe disse quanto custava o comboio, ele ficou felicíssimo, e que fosse, que havia muito lugar romântico para namorar. E deixei-o com umas dicas de como aprender inglês pelo meio.
Já na estação, enquanto passava a segurança, pensava: não há nada como o romantismo de uma viagem. 


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