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Caminho e casa: 4a de Bruckner por Nelsons

Abro o email, e logo a imagem: o meu maestro vivo preferido, a minha sinfonia-chave. O disco saía no dia seguinte. Ganhei uma década de vida. Era o dia 13 de Fevereiro e por uma vez pensei que a amazon era São Valentim e Bruckner e Nelsons uma fusão animíssima de entidade amorosa.

Esta sinfonia ocupou vários papéis emocionais diferentes na minha vida. Em Lisboa era uma espécie de paisagem de alma, filtro a beber para chegar a um lugar interior, pré-lugar iniciático de uma viagem que não sabia ainda o que poderia ser. Em Berlim, tornou-se banda sonora. Era ela mesma a travessia da cidade: o percurso da alma, o que tinha de compreender dentro de mim mesmo, o que tinha de atravessar, e o campo aberto e alto da cidade, ambas a escreverem-se em mim. Compreendo agora: eu era o papel, eu era o espaço em branco, a cidade e a sinfonia eram a mão e o sopro, os criadores. Tudo podia nascer entre nós, tudo era possível. Sobretudo, esta travessia dizia-me a cada acorde que eu poderia ser mais alto do que qualquer ideia que eu tivesse de mim e sobre mim mesmo.
Mudando-me para Bruxelas, deixei de ouvir a 4ª de Bruckner. Primeiro, por sentir saudades desta espécie de unidade mágica, criação e casamento místico. Depois, por me ter soar a engano, como a 4ª de Bruckner me tivesse enganado, uma espécie de anjo donjuânico que em vez de me trazer o céu me vendeu um limbo por engano, depois de uma batalha de amor. E depois porque me parecia tão absolutamente prussiana, germânica e timbálica, pesada, quase desengonçada, para a delicadeza suja e desarrumada da minha nova cidade.
Percebo hoje, ao ouvir sem cessar a versão de Nelsons, com ela atravessando Bruxelas ou a alma, que com ela um ciclo se fecha e se abre. Nelsons faz do vocativo da tuba uma voz suave mas forte como uma espécie de vocação, não um alarde profético ou uma chave que abre gavetas memorativas. E não há nada de pesado: as cordas são suavíssimas, como se se tratasse de um instrumento único, as tubas unidas e nada metálicas, e a orquestra move-se como uma nuvem numa paisagem de Friedrich. Uma delicadeza mas um sentido narrativo absoluto, como se a música se abrisse à minha frente, neste mesmo momento. O terceiro andamento é medieval e rápido ao mesmo tempo, um castelo desdobrando-se no seu passado agora; e o último andamento ganha uma densidade de síntese mas também de confidência, carta e sussurro.
Compreendo hoje, que esta 4ª de Bruckner vem cantar o equilíbrio que procurei, pedi e construí: sou o adolescente que subia para Deus em Bruckner; o escritor que batia à porta do cosmos para abrir a sua alma; o flanêur perdidamente achado que era ele mesmo uma sinfonia ao som de Berlim nela; e o homem que encontrou o seu projecto de vida e a sua felicidade numa cidade pequenamente grande e tão clara na sua escuridão. 
Compreendo o hoje, a música compreende o hoje inteiro. E também o futuro, que é o sonho do passado ainda por formar-se. 

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