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a memória dos pulmões

René Magritte, "La poitrine" (o peito)
Quando me mudei de Berlim para Bruxelas, nunca pensei que me faltasse a neve, que tivesse saudades de falar alemão, que a organização germânica se tivesse incrustrado em mim de formas que não esperava. As grandes saudades nas pequenas coisas. Mas houve uma coisa mais que não esperava que me faltasse, tão no centro do peito: o ar. Sim, houve um dia em que me faltou o ar.
Recém-chegado, depois de um dia fechado a trabalhar, saí do sótão pequeno e romântico onde vivíamos para apanhar um pouco de ar. Mas ao sair, as ruas pareciam apertar-se contra o meu peito; a estrada parecia pequena, estreita, desaparecendo. Entre as casas, uma rua de um único sentido pejada de carros estacionados; nem céu diante, nem passeio largo, pessoas a andar coladas a mim, lixo no chão. De repente, a estrada é uma miragem, as casas apertam-se umas contra as outras, as ruas são escuras; o caminho é um fio de ar, escasso. Falta-me o ar, não corre entre as casas apertadas, entre os pulmões esmagados, entre a memória de respirar. Só pensava no quadro de Magritte, "o peito".
Corro, desço a Chausée d'Ixelles. Finalmente uma praça. E um lago, mesmo que artificial. E percebo: os pulmões tinham memória, os olhos da respiração também. Que dois anos de ruas largas e espaço a perder de vista me alargaram a cabeça. Que sem esse espaço amplo nos olhos e nos passos não conseguia respirar.
Berlim tinha-me ensinado a respirar, tinha-me expandido os pulmões. Agora tinha de continuar a aprender, mais longo e mais amplo - mais para dentro.

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