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Uma rua de Bruxelas, I: Rue du Miroir

Sobe, rua, sobe.
Nunca tinha pensado que os espelhos subiam, disse para mim mesmo. Dois ciclistas descem a rua de paralelipípedos escavacados pela chuva e penso que os dois terão a mesma sorte. Subo para o passeio que não há na rua que é apertada e antiga.
A rua é medieval, penso, e imagino-a ligar os Marolles ao centro. Quem a atravessaria, para ir para onde, pergunto sempre que uma rua é antiga e persiste. Pergunto à rua e ela responde. Sobe, rua, sobe. Estou a meio, a rua cruza-se com a Rue Haute e a Rue Blaes, que encontro sempre como se fossem dois segredos antigos e sempre novos, para mim e para a cidade. Ao fundo a loja onde Deus criou o mundo, um carro ou dois a lembrar que estou em 2018, estou quase a chegar.
Sobe, rua, sobe. Tudo me pesa, custam-me as pernas, mas porquê aqui se estou quase a chegar, pergunto ao corpo. A rua serpenteia, de repente um canal, de repente um barco de velas tocadas ao sol raro de Bruxelas. "Tudo isto eram ribeiras", "beek" em Neerlandês, repete-me o B. na minha cabeça. Terás sido um rio, pergunto à cidade, pensando como ali a olhar-se todos se veriam "como num espelho."
"Mas depois vemos face a face", continua a carta de São Paulo quando já chego aos Tanneurs, quase no fim. Pouso os sacos, abro o casaco, sento-me numa esquina donde vejo Chapelle e lá em cima uma antevisão do Sablon. Nesta esquina pode-se conversar com o tempo a passar pelas pessoas, forma de o enganar. 
Mas não engano. Sobe, rua, sobe: mostras-me a minha idade. Pernas e pulmões, para que vos quero. Lá em baixo fica a Rue de l'Epée, rua da espada.
Pego nos sacos e saio depressa antes que seja tarde demais.

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