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Do deserto na escrita

Deserto do Negev, em Israel
Fotografia: https://www.voyagesetenfants.com

Cinco anos a tentar escrever. Pouco, quase nada, grãos de areia. Distância, de tudo o que foram os textos do passado, os hábitos de escrita, as ligações interiores e as feridas que serviam de chão e de pergunta.
Cinco anos de viagem infértil que me gerou hoje. Mas há um processo interior, mais longo e largo que apenas o facto de não produzir nada de concreto, que é ele mesmo um resultado, uma escada, uma espécie de escrita para dentro, e que não é o tema deste texto.

Apesar de haver técnicas, que aprendi e ensinei, que permitem atravessar essa fronteira, havia um um contínuo desacerto entre projecção e realidade, entre sonho e processo; pesava sempre a pressão de um esforço permanente; e uma inevitável comparação com outros momentos do passado em que o processo criativo foi uma descoberta, ou mesmo uma luta mas fértil entre ideia e concretização.

De tudo isto, tiro uma imagem de quando visitei o Negev, mais ou menos o que se vê nesta fotografia: a beleza do nada. Talvez o leitor imaginasse o deserto, antes de o ver, com aquela lonjura mágica de areia sobre areia, entrecortada por nada ou pelo ocasional e muito desejado oásis. Não assim o Negev: montes de areia, pelos quais andei, e onde não havia vida nenhuma. Zero. Nem plantas, nem seres, só ocasionais aves de rapina, ameaçantes. Palácios de areia, montes de calor e sede.
Ao longo destes anos, percebi que a escrita tem de ser assim mesmo: tem momentos de liquidez, de abundância, como os largos desertos; dificuldades de construção, subidas como montanhas; grutas como a urgente e necessária descida ao fundo de si mesmo para poder criar. Florestas e bosques de mistérios antigos, monumentos e formas de memória. E também desertos: que é preciso atravessar para chegar a um lugar novo.
Releio as muitas notas escritas neste tempo de deserto: são sede, são cansaço, são muitas vezes passos sobre passos, repetidos, conhecidos de ontem. Mas em todas estas vezes procurei andar. Rainer Maria Rilke foi um companheiro e um guia:
The future enters into us, in order to transform itself in us, long before it happens.

O deserto já existia dentro de mim, e muitas coisas dentro de mim o criaram e esperaram. Precisávamos um do outro, para nos superarmos.

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