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Dezassete álbuns de 2017, parte II



Depois dos 8 albuns novos (ou reedições), um passeio pelos outros 9 que mais ouvi, e que fizeram uma espécie de percurso interior ao longo dos dias.

10. Prokofiev: Sinfonia Nº5, LPO, Walter Weller (Decca, 1970)
Nunca tinha percebido o entusiasmo de tantos com a Sinfonia Nº5. A primeira faz parte dos álbuns de sempre (sobretudo a versão de Svetlanov, onde o tempo lhe pergunta como aprendeu a correr). Dias antes - e por isso comprei este album em saldos - tinha ouvido a 2a e a 3a, obras estranhas, modernistas, mecânicas. Interessaram-me muito, mas ao ouvir o resto do album, a 5a apareceu de uma forma nova. Weller dá-lhe um carácter de jogo, de ironia e de desafio, que me fez andar nela noites e dias. Sobretudo o estranho e divertido segundo andamento.
Não sei explicar o que me fez. Quero escrever que me ensinou um sentido de detachment, de separação da realidade. Não sei porquê. Mas deveria escrever dança. Foi o que fizemos juntos por Setembro e Outubro fora.


11. Stravinsky, Le Sacré du Printemps, MusicAeterna, Teodor Currentzis (Sony, 2015)
Encontrámos o disco em Viena, na loja da Sony. Tinha lido uma recensão favorável na "Diapason", e a simpatia da Fraulein da loja deixou-me ouvir o disco. Nem precisei de um minuto. A barbárie sai deste álbum, violência, inextinguível.
Com ele fui a um tempo onde nunca vivi nem estive, e a uma história que ainda me falta contar no tempo indiviso.

12. Haendel, "The Messiah", Orchestra of Saint-Martin-in-the-Fields, Sir Neville Marriner (Decca, 1976)
Tenho uma versão que amo e considero acima de todas (Paul McCreesh, Archiv). Mas não sou "homem de um só livro". Queria uma versão antiga para comparar, para ouvir a peça de novo. Ter ouvido o "Messias" ao vivo em Londres, na Sexta-feira santa (uma tradição com quase duzentos anos), ligou-me à obra de outra forma. Não é só música: aprendi a rezá-la.
Este "Messias" gravado quando os meus pais estavam em Londres, pouco antes de eu nascer, tem um sentido de fé e de genuinidade que enchem cada instante.

13.Brahms, Música de Câmara (Diapason, 2015)
Não largo Brahms (a 3a, o 2º Concerto para Piano, a 2a em dias em que preciso respirar florestas alemãs nesta cidade poluída e apertada); mas a música de câmara sempre me disse pouco. Uma excepção: o quinteto para clarinete, exótico e inglês como um comboio a sair de St Pancras para York numa tarde de nevoeiro e de separações dolorosas.
A selecção da "Diapason" de novo abre territórios novos e traz gravações altíssimas muitas vezes esquecidas. Os quartetos são dores divididas, a música para tuba uma quimera antiga, os quartetos com piano um romantismo outro.

14. Sidney Bechet, "L'album souvenir" (Universal, 2004)
Comecei Fevereiro e uma nova fase da minha vida ao som deste disco. Bechet dança, fala, canta, sobe connosco a lugares onde nenhum de nós estará. Há uma vida do passado do jazz que se ergue e canta aqui.
Entrei numa espécie de alegria do presente: de um presente de 1930 em Nova Orleães que atravessou o Atlântico e foi um pouco da loucura entre-guerras parisiense. E vivi uma espécie de amor que não tive nem sequer desejei num sítio aonde não passei nem nunca irei, a viver uma vida intensamente desminha.

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