Avançar para o conteúdo principal

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).

Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.

I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM)
Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no coração, uma despedida que não deveria tê-lo sido. Um rosto perdido, regressado numa noite de inverno entre o desespero e o deslimite.
Este disco devolveu-me o que a primeira neve de cada ano me ensina: a andar no branco, apenas passos e mais nada. Reaprender a ouvir os próprios passos.

II. Sibelius, Leif Ove Andsnes (Sony)
O pianista norueguês decidiu ir procurar nas páginas para piano de Sibelius, esquecidas ou menorizadas. O que encontrou são pequenas pérolas de intensidade: entre a reflexão interior, a recordação, a nostalgia e a magia.
O jogo claro e clarificador de Andsnes torna-as pequenas luzes, pequenos vícios.

III. Bach: Magnificat BWV 243A, Missa Brevis, English Baroque Soloists, Monteverdi Choir, Sir John Eliot Gardiner (Soli Dei Gloria)
O Magnificat BWV 243 de Bach que Gardiner gravou em 1983 para a Philips é o album que mais ouço; é a minha forma de agradecer ouvindo (e cantando). Gardiner grava pela primeira vez uma outra versão, num tom diferente e com algumas faixas extra. O resultado - e a rapidez - são como imagino a entrada de um bendito no céu.  

IV. Mozart: Complete Piano concerti, Lilli Kraus (Sony), reed.
Em 1965-66, uma pianista judia húngara que vivia nos EUA vai a Viena para gravar todos os concertos para piano de Mozart. Tendo aprendido piano com Bartók, tendo sido uma prisioneira de guerra durante dois anos num país distante, Lili Kraus sabia qual era o peso da harmonia.  
Kraus estava à frente do seu tempo, tendo até pedido para gravar num cravo (o que não lhe permitiram, pois claro), e pedindo continuamente aos músicos da orquestra para não tocarem "tão alto". Obrigou o maestro a sentar-se com ela ao piano durante horas e tocarem os concertos em dois pianos.
Reeditado em CD pela primeira vez, num stereo envolvente, é como se este piano fosse uma voz, no centro do palco, falando apenas e só comigo. Por vezes, é uma história elegante contada por uma avó, por outras vezes uma piada feita música, um quadro movente de sombras que nos corta como uma onda, os rios da morte num batimento do coração. Mozart está aqui, tão claro e perto que posso até tocar a voz de Deus nos seus dedos.


V. Beethoven: Integral das Sinfonias, várias orquestras, Pierre Monteux (Decca), reed.
Outra integral que aguardava imenso, fugazmente aparecida em dois álbuns "Decca" mas cuja 9a tinha de se ir apanhar longe à Westminster. Não digo a ninguém que é A versão das Sinfonias de Beethoven porque essa será sempre compósita e mudável como Sá de Miranda dizia da vida. Mas aqui tudo dança, sombras, dores e visões, tudo atinge um equilíbrio. A "Eroica" com a Concertgebouworkester é um dos maiores discos clássicos de sempre e a 7a uma dança infinita com a vitória. Uma audição da integral e percebemos porque é que Monteux chamava à mulher "Eroica". Cuidado com os vizinhos.

VI. As Dreams, The Norwegian Chamber Choir, Grete Peterson (BIS)
Uma selecção de peças vocais de modernos compositores escandinavos. É um disco que descansa na mesma medida em que desconcerta, como se os nossos passos por uma floresta maravilhosa fossem cortados por estranhos encontros com o céu. De notar as peças de Per Norgard, um choque vivo.


VII. Tallis: Many are the Wonders, ORA, Suzi Digby
A aposta poderia estar perdida à partida: interpretar uma obra de Tallis e fazê-la seguir por uma obra contemporânea. Algumas delas foram encomendas directas de ORA expressamente para este CD.
O resultado é luminoso. O album tem uma coerência imbatível, para além de ser um choque interpretativo, ligando passado e presente, fazendo-nos perguntar o que é afinal o tempo. Não apenas as interpretações de Tallis são fulgurantes, mas as contemporâneas também. Digby concede a tudo uma clareza e um sentido de proporção e de equilíbrio, sem maneirismos nem excessos.
O álbum ouve-se como um vitral, contínuo e trespassante de céu.
Acima de tudo isto, está o díptico extraordinário composto pelo motete "Videte Miraculum" de Tallis e do seu eco contemporâneo com o mesmo nome, assinado por Richard Allain. Comece o ano novo por aqui, por esta luz jorrante mais antiga que o tempo. O meu sangue ainda gela e sobe ao ouvi-lo.

VII. Brucker: Integral das Sinfonias e das Missas (Diapason)
Na fronteira entre álbuns saídos em 2017 e álbuns antigos que mais ouvi este ano, o volume da colecção de "Indispensáveis" feito pela revista "Diapason". Um álbum tremendamente bem escolhido das Sinfonias e Missas de Bruckner. Melhor presente de Natal teria sido impossível. 
Para além de clássicos absolutos, como as versões da 5a de Jochum, da 7a por Bohm (que não subscrevo, mas compreendo), ou das 8a e 9a por Furtwängler, algumas surpresas: duas gravações de um americano em Viena, F. Charles Adler, minerais e vogantes; e a 4a e a 5a por Hermann Abendroth, entre vertigem e ciclone. Só falta uma versão de Klemperer para fazer justiça a este Bruckner (já que as versões de Rogner e de Celibidache foram publicadas após 1962, ano limite das gravações seleccionadas).
No próximo "post" falarei dos álbuns que foram o meu chão e o meu céu musical em 2017.

VIII. Tchaikovsky: 6a Sinfonia, MusicAeterna, Teodor Currentzis (Sony)
O último porque primeiro.
Este disco não foi um disco. Foi um terramoto tão grande como não me pensei mais ser possível na minha vida. Escreverei sobre ele, espero conseguir fazê-lo, tal foi o acontecimento, o encontro deste disco comigo.
Por ora, apenas dizer: como uma orquestra internacional perdida em Perm, na Sibéria, dirigida por um grego, torna esta música violentamente radical, um golpe de alto a baixo. Escrevo-o hoje sem ter ainda conseguido ouvir o 4º andamento, de tal forma tudo é intenso, furioso, decepante. Currentizis é um génio, e não apenas pela visão, mas pelo que consegue da sua orquestra e do que todos dão aqui, fazendo desta música sangue. Quem viu a sua vida cortada a meio entrará neste disco, pelo seu rio alto de sangue.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…