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desencontradamente casa

São seis da tarde e está tão escuro que parece meia-noite. Não chove mas há um vento frio repetitivo de mãos dadas com uma chuva intrometida que se mete entre os pensamentos e os passos.
Entro na loja indiana perto de casa para comprar o que preciso para fazer uma sopa dal. Este tempo pede aquela combinação forte de especiarias e gengibre, vitaminas e viagem sobrepostamente. 
O dono, um indiano simpático de cinquenta anos, está à entrada a pôr uma caixa de compras no trolley de uma mulher escandinava, sorridente e apressada. Sai contornando uma menina indiana que chora em inglês; ela agarra a origem provável da discussão, a trotinete que quer usar para viajar entre os armários da loja pequena e pejada. Volto-me para procurar o que quero, mas não me posso mexer muito. A minha mochila está nas minhas costas, enorme de livros por causa de um dia de aulas. Cada vez que me mexo, cai uma coisa na loja. "Attention", diz-me o dono não entendo se em francês ou inglês, depois de apanhar uma embalagem de batatas fritas que deixei cair. Um casal composto por uma tailandesa e um indiano discutem que especiarias levar, e tenho de esperar até que acabem para eu passar. Ao fundo, ouço entre as várias vozes uma espécie de voz religiosa a rezar o terço. Entrevejo entre as prateleiras de trinta tipos diferentes de lentilhas uma mulher. Está no fundo da loja, encostada à prateleira de vinhos franceses; é a mulher do dono, voltada para a parede a recitar uma espécie de oração em hindi. Não consigo acreditar, mas verifico: o homem da rádio começa, ela continua. Nada na loja parece afectá-la. A menina da trotinete conseguiu fugir ao controlo paterno e vai quase em direcção da senhora orante, cuja oração provavelmente acabou de a proteger de um embate. Eu espero e continuo a olhar em frente para a prateleira que tem pelo menos quarenta especiarias diferentes. Que sopas mais poderia eu fazer, penso. Passa um frio percutido pelas frinchas da porta; e reproduzo o cheiro quente do prato de sopa acabado de fazer.
O casal tailandês e indiano decidiu-se sobre o que queria levar e eu consigo tirar as especiarias que quero, mas lembro-me que há também uma espécie de lentilhas de que preciso, no chão ao fundo. Ao voltar, uma centro-africana lindíssima compra um vegetal estranho enquanto tenta acomodar as compras no carrinho de bebé. Noto as chamuças no balcão, cheiram a vegetais fritos e caril suave. Não sei como ela entrou com o carrinho na loja apertada. Um indiano de trinta anos compra desenfreadamente, mas pôs a mochila à entrada para não fazer estragos - já sei o que fazer da próxima vez. Somos vários ao balcão, as mercearias diversas acumulam-se. Cheira a caril, chamuças, perfumes vários. O drama da trotinete está quase resolvido, há choro e inglês com sotaque indiano mesmo à porta, embora as baguetes sejam a primeira vítima da proibição de circulação da menina, mas parece que fui a única testemunha ocular. Uma flamenga toda sorriso entra para comprar a cerveja da noite, não consegue passar (ou não "sabe" passar, como soi dizer-se aqui) e deseja boa noite em neerlandês, que todos se apressam a responder na mesma língua. Entra - fica à porta - o marroquino da loja do canto para trocar moedas. O dono da loja gere tudo com a maior bonomia. A oração da senhora tem agora uma espécie de instrumento que faz vibrar tudo na loja, o bebé africano no carrinho tem um gorro damasco que o transforma numa espécie de anjo ou soberano, a mãe sorri enquanto paga o vegetal estranho que me parece uma oferenda ao menino Jesus, ouço francês, hindi, neerlandês, inglês e o português em que faço a lista mental de compras na minha cabeça - e de repente, por um momento rápido, não sei onde estou. 
A neerlandesa então põe a sua cerveja Orval sobre a mesa e de repente tudo regressa. Estou em Bruxelas, a cidade do mundo onde vivem pessoas de mais nacionalidades diferentes. Tenho uma estranha sensação de felicidade, mas também de pouco espaço, como estas ruas apertadas e de casas desencontradas. Encontradamente casa, penso para mim enquanto pago, saio para a chuva permanente, estrangeiro entre estrangeiros, todos aqui.
É isto que o Sr Trump não entende sobre Bruxelas, a que chamou "hellhole". Diz a fotografia que acompanha este texto, tirada aquando da manifestação em que participei e onde lhe pedimos que se fosse embora daqui, do nosso "buraco de inferno".
Bruxelas ensina a cada rua a diferença. Só se tornou bonita quando o compreendi. Mais: quando percebi que aqui vivemos e tentamos viver num espaço pequeno tal e qual como é o mundo: o lugar onde todos somos diferentes e todos estamos em casa um dos outros.

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