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a luz da música


Gustav Mahler conducting the Vienna Philharmonic (Painting by Max Oppenheimer, 1935)

Vim aqui tantas vezes. Seco e perdido, como se não achasse o caminho para casa. Pedia aquele milagre que Oppenheimer sentiu e desenhou, porque como eu era o vazio e decerto que as mãos e os olhos serviram-lhe para nada perante este fogo de música.
Bati à porta deste quadro, com tanta sede, tantas vezes.
Eu via a orquestra, os rostos severos e luminosos austríacos e húngaros, a clareza das figuras e dos instrumentos, a forma e o transe. Via o real e o espaço que o alargava, que o atirava para além dos olhos e do espaço.
Mas a luz não me feria. Eu não via a luz deste quadro. Estava lá, tudo me garantia que ardia diante de mim, sol criado por um homem e visto por outro.
Pedia-lhe para ver. Que o fogo me atingisse de novo, descido do céu e uno com o que arde os meus pulmões para o cosmos. Que eu pudesse ver a luz da música. Ou que ela me visse e me ardesse.
Instrumento, não passo de instrumento, repetia.
Cada vez que aqui regresso, continuo a pedir. Há tanta luz ainda a reter, a aprender, a beber.

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