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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2018

Do deserto na escrita

Cinco anos a tentar escrever. Pouco, quase nada, grãos de areia. Distância, de tudo o que foram os textos do passado, os hábitos de escrita, as ligações interiores e as feridas que serviam de chão e de pergunta.
Cinco anos de viagem infértil que me gerou hoje. Mas há um processo interior, mais longo e largo que apenas o facto de não produzir nada de concreto, que é ele mesmo um resultado, uma escada, uma espécie de escrita para dentro, e que não é o tema deste texto.
Apesar de haver técnicas, que aprendi e ensinei, que permitem atravessar essa fronteira, havia um um contínuo desacerto entre projecção e realidade, entre sonho e processo; pesava sempre a pressão de um esforço permanente; e uma inevitável comparação com outros momentos do passado em que o processo criativo foi uma descoberta, ou mesmo uma luta mas fértil entre ideia e concretização.

De tudo isto, tiro uma imagem de quando visitei o Negev, mais ou menos o que se vê nesta fotografia: a beleza do nada. Talvez o leitor imagina…

desencontradamente casa

São seis da tarde e está tão escuro que parece meia-noite. Não chove mas há um vento frio repetitivo de mãos dadas com uma chuva intrometida que se mete entre os pensamentos e os passos. Entro na loja indiana perto de casa para comprar o que preciso para fazer uma sopa dal. Este tempo pede aquela combinação forte de especiarias e gengibre, vitaminas e viagem sobrepostamente.  O dono, um indiano simpático de cinquenta anos, está à entrada a pôr uma caixa de compras no trolley de uma mulher escandinava, sorridente e apressada. Sai contornando uma menina indiana que chora em inglês; ela agarra a origem provável da discussão, a trotinete que quer usar para viajar entre os armários da loja pequena e pejada. Volto-me para procurar o que quero, mas não me posso mexer muito. A minha mochila está nas minhas costas, enorme de livros por causa de um dia de aulas. Cada vez que me mexo, cai uma coisa na loja. "Attention", diz-me o dono não entendo se em francês ou inglês, depois de apanhar…

Uma manhã nunca, I: Hauptstrasse

Um olhar do canto da porta, enquanto calçava as botas para a madrugada de neve lá fora. Não dormimos nada, entre um dos filmes mais tragicamente românticos no DVD interrompido por actividades um pouco mais romanticamente pragmáticas. Mas havia em tudo um estranho desacerto, uma distância dos gestos ao coração, do passado a cortar o presente. A despedida alargava-se disso, dessa estranheza agora. Disse para mim próprio, enquanto me despedia num alemão embrulhado ainda mais pela emoção: "nunca mais nos vamos ver". Saí pelas escadas em caracol, fechei a porta de metal esfarelada, atravessei o pátio interior onde a neve continuava a enterrar o presente, saí para a rua inteira. "Hauptstrasse", rua principal. A madrugada já cheirava a fritos e a borracha queimada, quando entrei no metro depois de me perder várias vezes pela rua alta demais para a minha dor.
Aquele olhar triste doeu-me durante muitos anos. O olhar não: a distância entre querer e ser capaz. 
Nunca mais nos vam…

a luz da música

Vim aqui tantas vezes. Seco e perdido, como se não achasse o caminho para casa. Pedia aquele milagre que Oppenheimer sentiu e desenhou, porque como eu era o vazio e decerto que as mãos e os olhos serviram-lhe para nada perante este fogo de música.
Bati à porta deste quadro, com tanta sede, tantas vezes.
Eu via a orquestra, os rostos severos e luminosos austríacos e húngaros, a clareza das figuras e dos instrumentos, a forma e o transe. Via o real e o espaço que o alargava, que o atirava para além dos olhos e do espaço.
Mas a luz não me feria. Eu não via a luz deste quadro. Estava lá, tudo me garantia que ardia diante de mim, sol criado por um homem e visto por outro.
Pedia-lhe para ver. Que o fogo me atingisse de novo, descido do céu e uno com o que arde os meus pulmões para o cosmos. Que eu pudesse ver a luz da música. Ou que ela me visse e me ardesse.
Instrumento, não passo de instrumento, repetia.
Cada vez que aqui regresso, continuo a pedir. Há tanta luz ainda a reter, a aprender, a beb…

Dezassete albuns de 2017, parte III (final)

15. Wood Works, The Danish String Quartet (Dacapo, 2014)
Canções escandinavas, mudadas para quartetos, perguntadas em elipse ao tempo; uma delas uma canção de casamento de uma ilha norueguesa, velha de 400 anos. Florestas, raizes e o futuro: todos parecem casar-se em longos barcos pelo gelo, casas infindas feitas por mãos gastas. E a noite: uma dança entre o sol e a lua.
Formados na música clássica (e tendo assinado albuns Haydn/ Brahms soberbos), dotados de uma liberdade larga, começaram aqui uma sequência de albuns-viagem.
Este disco é uma descoberta, uma pergunta, uma dança fora do tempo. Fiz tantas ruas dentro dele, como se o chão fosse uma cidade de madeira e gente que vive mais dentro que o tempo viesse ajudar-me a encontrar o que está mais longe.
Por vezes esqueci-me até que ouvia. Ou melhor: era tão natural que esquecia que era música.

16. Mozart, Concerto para Violino Nº3, Viktoria Mullova (Philips)
Foi um ano de construir equilíbrios.
Muitas vezes precisava apenas desta música ce…

Uma rua de Bruxelas, I: Rue du Miroir

Sobe, rua, sobe.
Nunca tinha pensado que os espelhos subiam, disse para mim mesmo. Dois ciclistas descem a rua de paralelipípedos escavacados pela chuva e penso que os dois terão a mesma sorte. Subo para o passeio que não há na rua que é apertada e antiga. A rua é medieval, penso, e imagino-a ligar os Marolles ao centro. Quem a atravessaria, para ir para onde, pergunto sempre que uma rua é antiga e persiste. Pergunto à rua e ela responde. Sobe, rua, sobe. Estou a meio, a rua cruza-se com a Rue Haute e a Rue Blaes, que encontro sempre como se fossem dois segredos antigos e sempre novos, para mim e para a cidade. Ao fundo a loja onde Deus criou o mundo, um carro ou dois a lembrar que estou em 2018, estou quase a chegar.
Sobe, rua, sobe. Tudo me pesa, custam-me as pernas, mas porquê aqui se estou quase a chegar, pergunto ao corpo. A rua serpenteia, de repente um canal, de repente um barco de velas tocadas ao sol raro de Bruxelas. "Tudo isto eram ribeiras", "beek" em Nee…

Dezassete álbuns de 2017, parte II

Depois dos 8 albuns novos (ou reedições), um passeio pelos outros 9 que mais ouvi, e que fizeram uma espécie de percurso interior ao longo dos dias.

10. Prokofiev: Sinfonia Nº5, LPO, Walter Weller (Decca, 1970)
Nunca tinha percebido o entusiasmo de tantos com a Sinfonia Nº5. A primeira faz parte dos álbuns de sempre (sobretudo a versão de Svetlanov, onde o tempo lhe pergunta como aprendeu a correr). Dias antes - e por isso comprei este album em saldos - tinha ouvido a 2a e a 3a, obras estranhas, modernistas, mecânicas. Interessaram-me muito, mas ao ouvir o resto do album, a 5a apareceu de uma forma nova. Weller dá-lhe um carácter de jogo, de ironia e de desafio, que me fez andar nela noites e dias. Sobretudo o estranho e divertido segundo andamento.
Não sei explicar o que me fez. Quero escrever que me ensinou um sentido de detachment, de separação da realidade. Não sei porquê. Mas deveria escrever dança. Foi o que fizemos juntos por Setembro e Outubro fora.


11. Stravinsky, Le Sacré du Pr…

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…

Revelhão

Não gosto do réveillon, nem da passagem de ano. É uma tradição superficial, que cheira àquelas que a Rainha Vitória recém-viúva inventava. "Revelhão", cheira mesmo a roupa velha saída do armário para uma jornada de idiotice. "Revelhão", velho duas vezes mas em aumentativo para parecer maior. Mesmo em francês a palavra, que vem de "réveiller" não acorda nada, senão as mesmas velhas ideias de começar por fora sem começar por dentro.

Faço tudo para o celebrar da maneira mais simples possível. O ano passado tive uma das surpresas da minha vida ao passar o fim de ano com uma querida amiga mas também com duas pessoas que não conhecia e que passaram todo o resto do ano no pensamento do meu coração.

Todos os dias 31 de Dezembro, independentemente de não gostar do réveillon, sento-me a fazer o balanço do ano anterior. Aprendi este balanço com várias experiências, mas uma em concreto com a extraordinária Clara Pinho (da Ariadne Porto).
É uma lista seca…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.