Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

o toque mais antigo

Pesada de infinito, mas suave; um toque nas mãos, mas pulsante. Uma forma de acordar quando não estamos em sono - mas afinal o mundo é que se revela suspenso, preso, e a realidade é toda ela interior. É assim que a poesia chega. Muito próxima de um murro, música ou memória; muito longe de um voo, mais de uma chegada inteira. Tão desenho como música, tão canto como lâmina, nunca consegui imaginar a poesia como serviço de um ego. É algo que precisa da minha vida e da minha experiência como uma espécie de caixa de ressonância, eco, energia, mas não serve para me servir. Um esquecido de si mesmo, apenas instrumento, orquestra - assim um poeta. Escrevo estas linhas quando há mais de dez anos não termino um livro de poesia. Poemas e ideias de ciclos de poema chamaram-me e senti que não era ainda o ser suficiente para eles. Guardo-os esperando que cada dia me faça crescer para os servir. Um velho barqueiro núbio trauteou uma canção numa língua perdida enquanto Saint-Saens descia o Nilo: guar…

O punho da escrita

Chegou o momento de falar de um tema que tenho evitado, que tenho guardado para mim - porque chegou o tempo em que cada acto tem de ter uma consequência larga, um eco mudador, uma ressonância para o mundo. 
A arte não é entretenimento. Essa normalização da arte como divertimento é uma operação de um certo capitalismo que pretende precisamente controlar - e apagar - a função essencial da arte. Fazer da pintura divertimento de fim de semana, do romance consolo de férias, da música indústria para tapar mentes, da poesia rodapé de imagens nas redes sociais: este é o meio, conhecido há séculos, aperfeiçoado na Europa pré-segunda guerra mundial. "A cultura agora imprime o mesmo selo em todas as coisas. Filmes, rádio e revistas criam um sistema uniforme como um todo e em todo o lugar. Mesmo as actividades estéticas de opostos políticos são uma só na sua obediência entusiástica ao ritmo do sistema de ferro." A citação de é Theodor Adorno e Max Horkmeiher ("A Indústria da Cultur…

Cânones, canhões e outras considerações

Porque é que há obras-primas conhecidas - que são também desconhecidas do grande público?  A pergunta é das primeiras que um estudante de Literatura faz ao confrontar-se com o chamado "cânone": obras (e muitas vezes autores) que são considerados a referência; esta serve para definir  uma série de categorias, de estilo, a material, às próprias definições de movimentos literários, muitas vezes até ao que tão volatilmente e fruta-da-epocamente chamamos "gosto". Mas mais interessante é perceber porque é que isso aconteceu, e continua a acontecer. Por mais que tenha lidado com o problema nos anos em que fiz crítica, ou na tese que escrevi sobre José Régio, o facto bateu-me à porta com uma peça de música: o concerto Nº5 de Saint-Saens. Várias peças de Saint-Saëns são bastante interpretadas e elementos centrais do repertório erudito, embora não sejam as Sinfonias de Beethoven ou as óperas de Wagner: o "Carnaval dos Animais", a Sinfonia Nº3 "com órgão"…

How I met your dictator, parte I

A direita portuguesa tem-me espantado estes dias.
Poderia jurar - várias vezes até o defendi - que se tratava de uma direita democrática, velando pelo funcionamento do estado democrático, procurando o bem comum, inspirada em princípios cristãos. Parece-me que o efeito da eleição de Bolsonaro tem agido como revelador do que esta direita portuguesa realmente pensa. Primeiro, a afirmação extraordinária de Assunção Cristas - uma mulher democrata-cristã - de que preferia não votar a escolher entre Haddad e Bolsonaro; entre um democrata e um adepto da tortura, da violência, não só machista mas contra as mulheres. Assunção Cristas não deve ter ouvido Bolsonaro dizer em sessão plenária no Senado a outra mulher (outra senadora) que ela "nem merecia ser violada" - num desrespeito incomensurável pelas instituições e acima de tudo por outro ser humano. Não sei quantas leis no céu e na terra aquela afirmação quebrou. O El País fez uma selecção desta e doutras frases, se Assunção Cristas…

Um copo de Malte

Por várias vezes estive perdido e ele encontrou-me. Na verdade, tem sido ele o meu encontrador - queria dizer salvador - mas é mais isto: ele encontra a minha dor, conhece-a, percebe-a. Salga-a por dentro de luz. E é ferido mas percebido que prossigo. Falo de Rilke - mas contar esta história de encontro e multiplicação não sei ainda fazer. É algo demasiado íntimo, na fronteira de mim comigo, para o conseguir dizer. Mas há dias, uns caixotes de mudanças inacabadas trouxeram a desordem bibliográfica que os livros pedem, e aqui em casa aterrou Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, sublinhado e cavo como um fogo antigo. Para contar o que me fez, partilho um velho artigo que escrevi na altura da sua edição no então Canal de Livros, o primeiro site de crítica literária na internet em Portugal. O ficheiro data de 13 de Maio de 2014, pelo que deve ter sido publicado pouco depois. Distância falando, escrevê-lo ia hoje diferentemente, mais seco na prosa e no olhar; mas que maior homenagem a Rilke - …

Brasil: o início do fim

À hora em que escrevo faltam ainda 24 horas para saber quem vai ganhar as presidenciais no Brasil, se Haddad, se Bolsonaro. Tudo indica que será o último, e com ele a vitória da extrema-direita no Brasil. O que tenho para comentar é apenas o papel de muitos supostos democratas no Brasil e em Portugal, que preferiram ódios pessoais à defesa da Democracia. A afirmação mais famosa foi de Assunção Cristas, presidente do CDS-PP, um partido democrata-cristão, que afirmou que entre os dois candidatos disse que "preferia não votar". Não há dúvidas sobre o que pensa num estado baseado no respeito das liberdades, da lei, e do cuidado pelas minorias e pelos oprimidos; uma atitude, aliás, extremamente cristã: e com isto o democrata e o cristão de que se arvora ficam claramente servidos. Mas também muitos no Brasil preferiram não manifestar o seu apoio a Haddad em vez de votar em Bolsonaro. Foi o caso de Ciro Gomes ou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Grande lição daria a todo…

No more Brussels-bashing

Proibí o "Brussels bashing" à minha volta. Não aceito mais que digam mal da cidade. Que se mudem.
É tão fácil ouvir gente com empregos caídos do céu, condições de vida maravilhosas, reconhecidas no que fazem, a destilar as suas angústias para cima da cidade que os recebeu - e que lhes deu o que são.  É claro que Bruxelas não tem o cosmopolitismo de Londres; o brilho de Paris; o sol de Lisboa; a simplicidade orgulhosa de Copenhaga; a naturalidade complexa e ampla de Berlim. Compare-se com tantas cidades e é fácil desqualificar Bruxelas. O ministro para a Mobilidade regional, Pascal de Smet chegou mesmo a comparar a cidade a uma prostituta (como se pode ouvir aqui): "bela, excitante e desagradável". A cidade tem problemas estruturais que vão demorar décadas a tratar: o trânsito, a limpeza, e a diversidade não comunicante: há mais diversidade por metro quadrado (de pessoas e culturas) mas nada disto dialoga. Mas o problema principal de Bruxelas são os seus habitantes…

Subitamente, o novo

Era para ser apenas um fim de semana com a música de câmara de Brahms (programa aqui): tornou-se a descoberta de uma ilha.

Sempre gostei muito de Brahms, mas eram só as sinfonias e os concertos. A música de câmara tinha ficado sempre para mim como uma coisa cansativa de violinos arrancados e trementes, violoncelos pesados, uma corrida enxaropada de sensações velhas. Excepção única, as sonatas para clarinete e piano, e o quinteto uma doença outonal que me acompanha há muito, e que foi a banda sonora do meu primeiro Outubro berlinense: percebe-se melhor Brahms num bosque laranja-fogo. Pelas mãos de Augustin Dumay e dos seus amigos tudo mudou. Não posso dizer que as interpretações tenham sido todas de primeira água, mas das várias sonatas para violino, ou violoncelo, ou dos trios e quartetos, três luzes rasgaram a vista. O Trio Nº1 para violino, violoncelo e piano: o tema parece nunca mais largar os ouvidos: é como a melodia de uma memória irresolvida, que se deixou a meio, que parece p…

Uma rua como uma prova

Há ruas de Bruxelas que são como a prova dos nove: qualquer coisa mais se passa ao conseguir integrá-las no mapa pessoal da cidade, ao percorrê-las, ao passarem de caminho a destino. Não são bonitas, são sujas, são confusas; andar não é sinónimo de circular. Não há nada do aspecto vagamente medieval do centro da cidade; é uma rua mais larga sem que isso signifique mais amplitude do mais característico, do mais único. Passei a correr, tantas vezes, incomodado com o ritmo da rua que não era o meu. Até ao dia em que a rua me parou. E eu pude admirá-la na sua grandeza: a diversidade que se atravessa no caminho, a multiplicidade que torna a cidade rica; e tudo isto sem um esforço, sem enganar: Bruxelas mostra o que é, as suas feridas estão à vista. Bruxelas não mente a ninguém: é o que mostra. Quem gostar da Rue Malibran, alta e confusa; do Boulevard Anspach, onde há uma zona pedonal que aumentou o lixo e a confusão; e uma mão-cheia de outras que caminham pelas mesmas pedras, acabará por g…

Votar no meu bairro na Europa

No final da aula de Neerlandês, o R., o meu professor, diz-me: "Sabes como é importante votar nas eleições comunais". Agradeço-lhe, dizendo que fui provavelmente o primeiro cidadão a inscrever-se, ainda era Março e os funcionários da Comuna nem certos estavam de eu o poder fazer tão cedo. Também eu perguntei aos alunos nas aulas, espantando-me da informação e consciência de tantos. Estaciono a bicicleta. Tenho de ir tratar de burocracia. Vou a pé até ao cimo da avenida. O semáforo fecha. Há um velhinho de bengala e boina basca à espera. Chama-me. - Jeunehomme, vai atravessar a rua? - Sim. - Importa-se de me ajudar a atravessar? Ora bem, vamos escolher um braço: eu sou canhoto. Pode dar-me o seu braço esquerdo e eu dou-lhe o direito? Faço o que me pede. Noto que traz um saco de sarapilheira com uma fotografia dele e um número. É candidato. Pergunto-lhe. - Sim, sim. Sou o número 29 da lista do CdH (partido de centro-direita, humanista). Sou o mais velho de Etterbeek. Tenho oi…

Eu posso ser o migrante de amanhã

Custa um minuto a ler a petição que encontra aqui e que se chama "Por uma Europa acolhedora". E custa outro ler o resto desta publicação.
Já pensou alguma vez o que leva uma pessoa a tornar-se migrante? Ter um tom de pele diferente, amar uma pessoa do mesmo sexo, defender os seus direitos ou dos seus irmãos, ter uma opinião contra-corrente, querer exercer o seu direito de votar. Nada de muito complicado, portanto: o que significava ser um cidadão há meses atrás, e que agora já não é o "novo normal".
E acontece num minuto: quando um fascista é eleito presidente nos Estados Unidos; quando o sistema financeiro quebra, deixando os desfavorecidos mais desfavorecidos; quando um país é ocupado; quando alguém decide rasgar tratados, direitos e garantias. Os últimos dois anos mostraram-nos isso: com o Brexit, a eleição de Trump, as reviravoltas legislativas na Hungria e na Polónia, a invasão da Crimeia. E vão mostrar ainda mais, dentro de meses - se se eleger um presidente…

A bestialidade que grassa

O mundo está ao contrário na América.
Quem pôde ouvir Christine Blasey Ford expor uma ferida antiga, à frente de estranhos, num ambiente hostil, divulgada por todo o planeta; e interrogada - por outra mulher - como uma mentirosa, e pensar que se tratava de um comité de um Senado, a casa que representa os cidadãos, o garante de um estado Democrático? Quem poderia pensar que uma mulher expunha assim a sua vida, gratuitamente, apenas para perturbar a vida de um homem? E não de um homem qualquer: de um homem que se candidatava a um lugar onde representa a constituição, que por ela deve velar, que deve representar os valores do país? Nem quero comentar o discurso em resposta, do Juiz Kavanaugh. Nem da direita conservadora e religiosa que veio defendê-lo - perante uma mulher indefesa que veio apenas, com um sacrifício mortal, falar da verdade. E que recebeu, com isso, ameças de morte, foi separada da sua família, e como coroa de glória, foi troçada pelo próprio Presidente dos Estados Unido…

Uma expandida, outrada manhã

Uma manhã larga, com cheiro fresco a relva, prados sucedendo-se a prados, os olhos a correrem a descobrir o sol. Era assim que queria esta manhã: expandida, desdobrando-se, céu e campos a desmedirem o dia.
Uma manhã que não fosse minha. Que não fosse deste corpo, da memória destes olhos, do alcance dos pés ou das memórias - que fosse mais alta que eu. Uma manhã que fosse de outro ser, mas que esse ser fosse eu.
Uma sensação total e toda estrangeira, intacta e toda: onde eu pudesse ser mais além deste feixe de ossos e carne, tudo lugares que conheci e que me limito. Onde eu pudesse ser o começo, os astros desmesurando-se, a vida nova e inteira: uma manhã, correndo para o sol, a extensão plena e outra.

(para a Cuenca; e para a Claudia, o Miguel e o Nemo)

O céu como água (Edimburgo)