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Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

Repost: "Com que moeda pagarei a vida?"

Antes da música, a figura: filho de arqueólogos, estudou música muito cedo. Em adolescente, passeava pela cidade com uma cópia dos quartetos de cordas de Beethoven no bolso. Começou a compor, e estreou-se como maestro aos vinte anos. Veio o III Reich. Muitos músicos saíram da Alemanha por motivos óbvios, Furtwängler ficou. Há numerosos episódios da sua resistência silenciosa e concreta, como a chamada telefónica para as autoridades quando descobriu, que os músicos judeus da orquestra não estavam num ensaio. «Ou eles vêm ou eu vou», contaram testemunhas da cena.

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Recomeçar (setembro de sempre)

Repost: mudança nº14

Mas a consciência do presente e do passado, isso são as verdadeiras malas. Anoto tudo, querendo que o valor de um dia não se perca, e que "todo o oiro do dia" possa ser um dia transformado numa energia bem maior. Sétima mudança em 3 anos, 14ª em 37 anos de vida. Nossa senhora da mudança, que eu nunca deixe de a aprender.

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Um manuscrito ensina a sobreviver

O manuscrito está aberto à minha frente. Três séculos de sobrevivivência nos vincos das folhas, no esqueleto torto da lombada, nas curvas que as folhas fazem quando se dobram. Três séculos de sobrevivências, penso enquanto o disponho para conseguir ler, e o deito num berço para estar apoiado, quase descansar desta entrevista de um objecto três vezes centenário a um miúdo de quarenta anos. Três séculos de sobrevivências e resistências, ao desinteresse da sua época, aos supostos iluminados depois, aos que odeiam o progresso civilizacional (que são os que odeiam o passado e adoram a tecnologia), aos violentos deste mundo. Este manuscrito viu e ouviu, e sentiu nas tuas páginas toda a sorte de homens; Trumps e Putins deve ter visto vários, mas os tempos eram mais civilizados e havia batalhas para gabarolas destes perderem o penacho ou o acho. E por mais que me custe a dança barroca frásica, o floreado da letra, o tema ziguezagueante, só a sua presença já me ensina. Saio do seu contacto fís…

Repost: Colunadas

Desta vez foi menos agradável o serão. Quando a sogra vem, Jans não pode apanhar frutos com Louise e guardá-los no vestido dela, e depois apanhar mamas e maçãs com a boca molhada.
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A miúda bem temperada

Reparo nela porque está a ler. Não pelo facto, frequente neste comboio Bruxelas-Gante, mas porque o comboio está lotado de turistas e de crianças de escola que querem ir à praia. Ela é a única pessoa descansada nesta viagem. Não consigo ver que livro lê, mas é da folio, com a famosíssima capa branca e o lettering Times New Roman. Mas são agora os óculos, antigos e de massa, enormes, que lhe ocupam a cara inteira, e a parecem fazer ser apenas olhos. Parece que fez os próprios vestidos, que me parecem o sonho que uma rapariga de 16 anos gostaria de aprender a fazer e poder usar. Mas ela é só óculos e livro, que lê como se fosse o evangelho segundo Maria de Jesus. O comboio parou, os miúdos fizeram barulho, veio o revisor, mas ela foi só livro. Saio em Gante. Ouço um ruído metálico atrás de mim. É ela, a puxar uma bicicleta desdobrável, onde se senta, e plataforma fora, lá vai como se fosse a primeira bicicleta e a primeira circulação proibida. Vejo-a a afastar-se, os caracóis ao vento.…

Repost: o cheiro de um vitral acabado de colher

sei sempre como começo a escrever, nunca sei como escrever me começa.
não é a minha profissão, não é a minha compensação de nada. apenas sirvo a linguagem e o que ela serve.

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Calais

Os olhos páram mesmo que não quisesse: o comboio está quase a entrar no túnel da Mancha, a paisagem pressente a proximidade do mar.
Mas o que os olhos esperam, a realidade não traz: nada de pequenas vilas piscatórias, próximas da costa; nada que testemunhe séculos de contacto entre a ilha imensa e o continente onde ela quer estar sempre a metade. Nada: muros e cercas, arames farpados e câmaras, uma prisão. É esta uma das portas da Europa que mais vivificou a cultura e o comércio, transformada agora numa penitenciária para quem ouse passar. E eu, confortável no meu comboio branco, a ouvir Brahms em stereo e vagamente chateado pela hora matutina, sinto-me atacado por tudo isto como por um espelho súbito. Tento tirar uma fotografia, para acrescentar a este texto que já se ia escrevendo na minha cabeça, mas a paisagem prisional vê-se distorcida e comigo em reflexo. Penso: não estou eu a permitir isto? Quantos gestos faço para esta prisão crescer? Não estou a pactuar, em acções minhas e ta…

Repost: 100 anos de Richter

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)


Voltávamos da praia, sob um cansaço azul. O carro separava-se da areia e do mar, entre palmeiras e a terra amarela e perfumadamente antiga do Algarve. No rádio, a perfeição: a suavidade em estado puro. Beethoven depois de uma tempestade, quando o mundo regressa da agitação.
Não tardou a terrível notícia (continue a ler aqui).

Repost: Acordo Raso

O acordo é um casamento forçado que leva as duas partes a querer anular o passado uma da outra.
O Acordo, que poderia ser uma extraordinária e concreta forma de mostrar que não temos um complexo imperial nem sequer na língua que impusemos às nossas ex-colónias, tornou-se o inverso: uma ferramenta de neo-colonialismo. Que os nossos co-falantes angolanos e moçambicanos, para já, rejeitam. Como é que um país tão antigo e rico de história gerou políticos tão rasos?


(Continue, benévolo leitor, indo aqui)

Repost: o poder da mãe dormida

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

O autocarro traz sempre as suas surpresas. Vem cheio de dois tipos de pessoas: as que querem ir para a cama, e as que querem ir para a cama. As primeiras cheiram a óleo, a produtos de limpeza, a cansaço tão acumulado que parece que apenas o calor do autocarro e os olhos semicerrados os mantém, embrulhados numa espécie de pré-sono. Os outros fazem barulho, ronronam, têm vozes engatadas de cerveja; espatifam-se uns nos outros como se o amanhã tivesse de se inventar numa noite rápida.
Sentaram-se os dois muito rapidamente, e com eles uma multidão de tratados. Ele alemão alto loiro e largo, daqueles que prefere uma semelhante à mesa e uma diferente na cama. Era o caso: ele dava para um anúncio de uma cerveja típica, feliz com a sua loira sonante e corrente; e ao lado,…

Repost: arqueobiografia, Santo António

(As Crónicas de Bizâncio estão de férias mas a leitura não; releia aqui alguns dos nossos posts de mais de dez anos de actividade) uma tarde de outono, com a N., naquela casa onde os fantasmas iluminavam as paredes, onde o próprio rio que se reflectia nas janelas era a corrente do sobrenatural, um Deus sem tempo veio ter comigo.
(Para continuar a ler o "post", clique aqui).

Repost: Um manjar de Papas

Tudo isto se lê – com terror e espanto, como preconizava Aristóteles, que de certeza não pensava numa nova religião universal quando escreveu a sua Poética, e muito menos na tragédia que o Papado foi (é?) – na sustentada e viciante narrativa que John Julius Norwich escreveu - Os Papas - A História (Civilização). O antigo diplomata Norwich e eu temos uma história de amor: devorei os seus três volumes de História de Bizâncio. A erudição velada, acessível, de que se serve para tornar as figuras históricas próximas, humanas: sentimos, após três parágrafos, que as conhecemos; a facilidade em expor situações complexas numa abordagem concisa mas clara; o cuidado em conclusões com os olhos da época, sem concessões a interpretações que desintegrem o movimento das ideias. Único problema: o aspecto de resumo que Norwich impos a si mesmo: há alguns passos em que visivelmente se cala, e onde seria excelente ouvir a restante narrativa.

(Continue a ler aqui).

Repost: todos os princípios começam no fim

(Estamos a republicar antigas publicações no blogue; aqui vai um excerto de um dos primeiros textos) tudo isto por causa de bizâncio; devoro há dias A Short Story of Byzantium, de John Julius Norwich. não sendo um livro de História pura e dura, é correctíssimo, inteligente e eficazmente contado. aquela excrescência histórica, ou degenerescência quase cancerígena (para continuar nas palavras longas de tom bizantino), como ao longo dos anos a pensei - e pelos vistos a pensámos, já que até Edward Gibbon, no seu Decline and Fall of the Roman Empire a considerava assim: uma espécie de barco de depravados, cadáver adiado.
um princípio que começou com um imperador Constantino e acabou com outro - como o do Ocidente "começou" com Rómulo e acabou com Rómulo Augusto. ou como este último acabou com as invasões, mas antes de mais com uma nova ordem que o cristianismo trouxe, e o bizantino com um novo jogo de poder no Oriente que o Islão trouxe.  (continue a ler aqui).

Repost: Blachernae

Perdido em Stambul: porque procuro Bizâncio, Blachernae em Stambul. Dou voltas e voltas, todos os mapas me parecem de outra cidade. Senta-te, Pedro, passaram seiscentos anos, tudo mudou. Os barcos do meu coração são diferentes dos que estão nos meus olhos. Entro num gabinete de apoio ao turista. Fechado. Mas o polícia aponta-me uma loja, onde um velho senhor com um inglês perfeito me ajuda a encontrar o caminho para onde quero ir: é do outro lado, «take bus, it’s very far». Pergunta-me na despedida se tenho a certeza de que quero ir lá. Digo-lhe com um sorriso que é por isso que vim. Ele sorri como resposta e guarda para si o que ia dizer. Parece que a Ásia não quer nada comigo. Pego em mim e através desta ponte, a Galatha Bridge, atravesso pelo ponto mais breve entre a Ásia e a Europa. À chegada, uma paragem onde parecem partir autocarros para o universo inteiro.

(Continue a ler aqui)

Repost: Mozart por Lipatti

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

Se eu soubesse escrever à altura deste disco, inventaria toda uma literatura.
No dia em que nada sobrar da Humanidade, e este disco fôr ouvido por ETs, muito do melhor do conhecimento e da beleza acumulados durante milhares de anos pela Humanidade terá perdurado - e então, a exploração do homem pelo homem, Auschwitz e Hiroshima serão lavadas por esta água multidimensional, por esta magia de esferas capaz de desabitar os pecados do mundo; capaz de reabitar o mundo e de o desorbitar. Nunca duvidei que quem ouvisse este Concerto de Mozart por Lipatti tornar-se-ia uma pessoa melhor. Séculos de educação, de religião, de teoria, valem menos que esta cristalinidade. Isto, se hoje ainda soubessemos o que é ouvir - porque já praticamente ninguém se deixa ser educado …

Repost: auto-ajude-me

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

A barreira dos cinquenta foi recentemente transposta, sem berreiro. Ela teria gostado de algum barulho, de uma festa surpresa, de uma manifestação pelo menos última dos seus próximos. Alguma coisa para a qual passear o pensamento nos dias iguais e tristes. O lenço verde-água com desenhos azuis está demasiado prendente ao pescoço, decoração que passou a ser conforto.aqui).
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Repost: o corvo

(Vamos de férias mas a releitura faz bem à literatura; ora releia um post antigo)
Quando o Outono vermelho foi mudado pelo longo Inverno, os pássaros chilreantes foram substituídos pela única ave que corta o branco frio de Berlim: o corvo.
Na minha memória, para além dos corvos de S. Vicente, para sempre na história e na bandeira de Lisboa, o pássaro era irremediavelmente uma coisa negra e atacante, companhia da Maga Patológica, amante de cemitérios, a considerar cadáveres uma delícia. Entre a neve, ouvir as asas negras grasnar sobre a tranquilidade trazia qualquer coisa de perturbador. Até que comecei a escrevê-lo. Àquilo: o romance que escrevi aqui em Berlim, que é sobre Portugal.
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Repost: os meninos da mamã Europa

(No período de férias, as Crónicas de Bizâncio praticam a releitura, republicando "posts" anteriores; uma releitura por dia, sabe o bem que lhe fazia?)

Depois era vê-los: sempre a falar o mesmo Inglês arrotado de consonantes arrastadas, rabecadas entre séries californianas e o que pensam ser inglês de Oxford. Estão sobretudo em Kreuzberg à noite, a relacionar-se com o mundo através do seu iphone. Escondem mal as roupas de marca por cima de um casaco em 2a mão que compram na Bergmannstrasse e que devem achar a maior loucura que fizeram na vida. Enchem as escolas de línguas do Estado de Berlim a aprender Alemão; aulas a que faltam quando a professora começa a apertar-lhes os calos ou a condená-los por chegarem mortalmente atrasados. "Puttana nazista". Enfadam-se mortalmente com as aulas, os colegas da mesma nacionalidade, os de Leste, os do Sul, os do Norte, e estão em Berlim com desejo de "Néue Iórquee" como uma ovelha a balir Almeida Garrett.

Já é tarde demais?

A visita de Trump à Europa dissipou todas as dúvidas. Se a peça de teatro que montou na NATO já tinha sido esclarecedora (atirando contra a Alemanha, dizendo que depende da Rússia, e pedindo aos aliados que paguem 4% do orçamento para a defesa), o que fez no Reino Unido foi pior. Como escrevia Jonathan Freedland aqui, o que se passou em Londres é uma imagem do que será o Reino Unido sozinho no pós-Brexit: uma presa fácil e manipulável dos Estados Unidos, o depósito de lixo da Rússia, que para lá atirou venenos velhos, coisa como nem na Guerra Fria se podia imaginar. A senhora May não podia ter descido mais baixo; ter-se-ia facilmente salvo com uma resposta em directo; mas ela nunca representou nada senão ela própria e a estirpe do mais básico sentido de casta do Partido Conservador, que ela mais defende por não ter nascido nele. Trump é um elefante numa loja de porcelanas consciente: ele visita os lugares para os assassinar simbolicamente. A acção de Putin faz o resto, pagando a popu…

Repost: Stokowski e Bach

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)


LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
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Irritações & Reclamações de um Utente Frequente de Aviões