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Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. Um caminho que eu próprio não compreendo, que começou na religião, foi à literatura e agora vive longe de tudo isso numa cidade estrangeira. Mas esse percurso tem uma linha cada vez mais clara: está-se no tempo sendo intemporal. E esta cultura massificada de rapidez e de futilidade não se responde com sacrifício de estar em tudo e todas com um discurso mais fundo - um discurso que venha de uma vida interior. Responde-se vivendo o tempo longo, sendo silêncio significante no ruído. Se tenho algo para fazer, é dar o silêncio o meu tempo e as minhas qualidades, e que ele as tome se quiser fazer alguma coisa de menos circunstancial com eles. Aprendi-o tarde demais - e talvez por isso esteja aqui há tantas vidas: não posso ir contra o meu sangue.

A isto se junta uma reflexão pessoal - pessoal, sublinho - sobre o papel que um escritor deve ter no mundo de hoje. Deve juntar-se ao ruído, ou deve fazê-lo ruir no seu silêncio? Deve refugiar-se, aprofundando o seu mundo interior, e rejeitando não apenas participar no discurso público, mas mais, recusar a cultura digital de exposição permanente?

Encontro em O Outro, de Imre Kertész, um lugar paralelo a esta minha reflexão pessoal: "Os factos odiosos, o ambiente destruidor, nas ruas, nos transportes, nas lojas: a agressão diária que se suporta em todo o lado (...). Esta vida estúpida conserva-me a um só nível, o da instantânea reacção ao efémero. A minha alma eterna (deixem que fale assim), a minha alma eterna solta-se de mim, devagar, e já sinto a sua renúncia desencantada: em vão tentei construir um ninho nesta casa..." (pg, 59).

Acabam aqui estas crónicas, depois de precisamente 9 anos de actividade. Para sempre? Não sei onde é sempre na nova forma de tempo que finalmente abraço. Mas a todos e cada um de vocês, sem dúvida até sempre.

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