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Não é preciso ser adivinho


Pouco antes dos atentados, roubando tempo ao tempo, li de uma penada o magnífico Milénio de Tom Holland (publicado em Portugal pela Alethéia); e como acontece quando a realidade quotidiana fere e bate, voltei ao meu livro de cabeceira favorito, os Ensaios de Montaigne. Voltarei aqui sobre ambos quando os dias me forem propícios.

Juntaram-se a isto as duas primeiras temporadas de The House of Cards. Com os olhos rasgados de ambos os livros, 500 e 1000 anos de história a separar-nos, e uma azia persistente pela violência simbólica da série, dei por mim a voltar para os jornais e a compreender o movimento das coisas de forma diferente. Ilusão ou não, o ar dos tempos assemelha-se tanto ao de Montaigne de há 500 anos, em que a idade média já teoricamente terminada se despedia no seu trovão final, e a passagem de milénio em que as estruturas do nosso milénio se fundaram, para agora desaparecerem. Uma nota só, que quero escrever mais tarde para fazer loas ao livro de Tom Holland: o historiador inglês nota que o milénio começa com a submissão de um imperador a um Papa, o poder temporal sob o religioso. E o nosso milénio, em que o poder temporal desaparece sob a égide do terrorismo supostamente religioso, e do poder financeiro? Não é isso (também) o que acontece a 11 de Setembro de 2001, quando aviões de terroristas em nome da religião atacam um dos símbolos do poder financeiro mundial?

Não é difícil adivinhar, dizia eu. O poder financeirista colapsa, embora como o poder religioso medieval, tenha ainda estruturas de poder vastas e verticais. Mas as populações revoltam-se. Foram precisas 24 horas para despedir um primeiro-ministro islandês; será preciso um pouco mais para expulsar Cameron [Cameron não tem personalidade por si próprio; só existe em contraste com algo ou alguém. A coligação dava-lhe motivo para existir; fora dela, é um saco de vento]. Mas é de supor que os papéis possam trazer notícias sobre outras figuras britânicas do passado. É fácil prever que o governo conservador não terá muitos dias mais (coisa que percebi desde que ganharam as eleições), e que haverá um novo primeiro-ministro em breve. E que a liderança de Jeremy Corbyn sairá reforçada: o antigo "New Labour" (tão amigo do financeirismo) vai enterrar-se mais com papelada do Panamá.
E que, infelizmente, isto custará ao Reino Unido e à Europa o "Brexit", com uma percentagem tangencial e ainda assim clara. E a subsequente desfragmentação do Reino Unido.

Vai ser igualmente claro que Bernie Sanders vai ganhar em votos as primárias democratas. Cada papel novo do Panamá é um voto em seu favor. Mas que uma convenção irresolvida (ninguém sem maioria clara) levará o Partido Democrata a dividir-se. Fará harakiri, escolhendo Clinton? Falam na divisão do Partido Republicano, mas são verdadeiramente os Democratas que estão divididos, como a eleição de Obama já tinha revelado. O mesmo se passará com os Republicanos, que encontrarão uma figura de consenso externa (como Paul Ryan) para vencer pelo centro. Mas os Republicanos não se dividirão, porque os abutres andam sempre em grupo.

A última coisa sobre que penso e projecto é a União Europeia. Ao descer a rua de casa, ao ir trabalhar, o edifício da Comissão à minha frente. O que é um símbolo torna-se uma pergunta. Um magnífico suplemento do "Le Monde" de 9 de Abril de 2016 respondia-me à pergunta, apontando cinco prováveis fins: os refugiados, a guerra, o euro, .... Penso o oposto. Volto a Montaigne: a União Europeia já deu à Europa algo nunca visto antes: 70 anos de paz. O facto de continuar a existir esta paz, e o hábito e necessidade de 28 países se sentarem em conjunto e procurarem saídas comuns (mesmo que falhas, mesmo que desumanas como no caso dos refugiados), é o maior exemplo de que a UE é uma realidade mais profunda do que ela mesma.

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