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Montaigne: a altura mais profunda

Não sei o que seria (o que é) estar vivo sem os os Ensaios de Montaigne.

Curiosamente, não o posso ler todos os dias. São raros os dias em que o leio; mas quando o faço, parece que respiro de novo, que uma página inflama outro quarto longe daquele em que estou, alargando luz em duas dimensões.
Este livro não me larga para onde quer que vá, e preciso que esteja ao meu lado enquanto durmo, ele mesmo lâmpada.
Fiquei surpreendido quando há dias, ao folhear a versão francesa que tenho há anos, percebi que o tinha comprado precisamente em Bruxelas, num março de 2009, numa das minhas então frequentes viagens aqui. Se preciso fosse, confirmei assim como este livro me ajuda a compreender a realidade.

Tendo vivido num tempo em que a Europa se dividia entre católicos e protestantes, e em que a própria França se trucidava em sucessivas Guerras de Religião; em que os Turcos ameaçavam chegar a Viena, um centro distante mas pólo do mundo conhecido; se destruíam cidades na Europa e criavam novas em novos continentes; em que razão combatia lentamente o primado da religião sobre o conhecimento, Montaigne olha para a realidade de dentro do pensamento e do livro, mas rodeado de catástrofe por todos os lados. É o exemplo do homem que vai para dentro do passado, esgravatando fios para compreender a realidade presente.

A gramática, o vocabulário, a estrutura do pensamento de Montaigne dão luta imediata ao primeiro leitor. Nessa batalha, Montaigne leva-me a ir para dentro do tempo. Perde a frase rápida, ríspida, informativa: isso não te serve de nada, fósforo quebrado. Luto, começo, recomeço-me: desprogramando-me, entro nestas linhas altas, túneis de Roma até ao fim da Terra.

Montaigne não me dá esperança. Não me dá conforto. Mostra-me como bem antiga é a "grande máquina do mundo", e como só atravessamos o presente com os pés bem conscientes no passado. O mundo são estradas que alguém começou há milhares de passos atrás, mas que os meus passos continuam e recriam.

Pus-me por isso, mais sequioso que antes, a traduzir alguns ensaios. Não que não haja uma versão portuguesa, de Rui Bertrand Romão, com largos desenhos de Pedro Calapez (Relógio d'Água). Mas eu precisei de lutar com Montaigne dentro da linguagem, para entrar noutro tempo onde pudesse ver o meu.
Publicarei essa versão de um dos meus ensaios favoritos em breve neste blogue.

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