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vela, a música


Toda a Sexta e todo Sábado, dias 3 e 4 de Março, passei-os numa vontade imensa de ouvir a Paixão Segundo S. Mateus de Bach.
Não é uma obra que eu oiça muito, apesar de gostar muito de Bach. Os recitativos, muitos deles lindíssimos, ainda quebram a minha narrativa interior. Talvez por eu ainda ser mais romântico do que barroco, e querer um discurso integral, sem quebras. Ainda não percebi que a vida é feita de roturas, de discursos descontinuados, de trajectórias suspensas e recuperadas - penso para mim, quando me vejo a reagir aos recitativos.

Procurei as versões todas que tinha. Fui ao Youtube. Acabei por perceber - consequências diasporais - que para meu espanto tenho três versões da Paixão segundo S. João e apenas uma da Paixão segundo S. Mateus. Precisamente a de Harnoncourt.

Ouço-a. Várias vezes. Preciso de mais intensidade, penso se comprarei ou não outra versão, mas volto a Harnoncourt. Ponho o disco de novo, querendo outro, mas ouvindo-o de novo. Estranho-me porquê aquela insistência. Páro, páro, porque conheço mas porque subitamente preciso, na ária "Ich will bei meinem Jesu wachen" (Vigio ao lado do meu Jesus). Como se vigia alguém que sofre, que passa entre luzes.
Partilho a ária no Facebook, não percebendo. Indirectamente pensando que, se aquela música me convocava, era porque alguém precisaria dela.
Percebo hoje, hoje mesmo, surpreso, que o grande maestro Nikolaus Harnoncourt tinha morrido. Estaria a sofrer, toda a Sexta-feira, e morrera no Sábado.
A sua Paixão de S. Mateus, uma revolução completa na arte da interpretação de Bach, era a luz que o levava daqui para o som total.



(Harnoncourt a ensaiar "Sind Blitze, Sind Donner" da Paixão de S. Mateus ("haja trovões, haja relâmpagos no céu).

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