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Caranguejola

Estou feliz por ter vivido este dia: aquele em que, de uma vez por todas, Cavaco Silva abandona a vida política portuguesa.

Eu faço parte da geração que viveu sob o jugo das suas maiorias absolutas. A tal "geração rasca", assim chamada por termos combatido mudanças que só pioraram o ensino em Portugal. Que pena, hoje, de não termos feito ainda mais para impedir a acção deste senhor. Uma geração onde o ensino piorou, as condições de entrada no mercado de trabalho também, onde toda a esperança se tornou em saídas cortadas. A geração rasca, a mais qualificada da história do país, foi aquela também que a história excluiu.

Muitos dirão que trouxe estabilidade, num país onde nenhum governo cumprira a legislatura antes dele. Que trouxe planos, pensamento, gestão. Uma ideia para o país. Tudo isto é falso. Sim: foram-lhe dadas duas maiorias absolutas. Sim, o nível de vida subiu. Mas isto à custa de receitas que em Portugal estavam esgotadas desde sempre: um Fontismo fora de época, com os mesmos custos do Fontismo. Depois da pimenta da Índia e do ouro do Brasil, Cavaco teve o terceiro tesouro: os fundos europeus. O resgate da troika bem mostrou como ele não transformou em riqueza a pimenta europeia que recebeu. Auto-estradas, privatizações. Conhecemos o resto, o capítulo seguinte. Que ele, aliás, poderia ter evitado, mudado, alterado enquanto Presidente.

Vinte anos novecentistas. Da política à visão do mundo, da política ao tradicionalismo nos costumes e na forma de pensar. Mais um retrocesso. É o que este senhor e a sua obra foram: uma caranguejola. Ora assim diz o Dicionário da Porto Editora, tão justamente que parece em sua homenagem:
1. ZOOLOGIA grande crustáceo da família dos Cancrídeos, de aspeto exterior semelhante ao do caranguejo, mas de dimensões muito maiores, comum em Portugal e muito apreciado em culinária; carangueja
2. figurado construção pouco sólida
3. figurado armação mal arquitetada
4. figurado veículo de fraca apresentação e desconjuntado
5. figurado sociedade ou empresa de pouco crédito  

O legado de Cavaco? Só uma palavra: rasca.

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