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qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XXIII


 
- Cuidado ao descer – disse-me, e eu não percebi se falava da minha vida, inclinadíssima ao desastre, ou do lanço de escadas reviravoltante, tremendo.
Como ambos se associavam naquele momento, aceitei que seria para ambos e prossegui-me.
Fazia frio naquelas escadas, como um bombardeamento de Chopin acontecendo em cheio numa ferida deserta. Desci agarrado à emoção do corte, aquele pulsar tão nítido quando somos um só com o tempo, destemperados.
Foi só quando me vi a mim mesmo, no fundo das escadas aos seis anos, é que percebi. Que mesmo tendo sido regressado lá, eu não tinha ainda a certeza se era memória ou realidade eu ter caído das escadas aos seis anos e não ter sofrido nada. Mas juro sentir, hoje como então, a dor física no crânio de quem sobreviveu ao impensável.

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