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Jardins para o fim dos tempos: o primeiro Concerto para Piano e Orquestra de Chopin


Sim: é um concerto para Piano e orquestra ao fundo. A orquestração é pequena, ineficaz, distante. Mas o concerto tem tudo do arrebatamento, do ímpeto interior, das angústias feitas instantes de altura do verdadeiro Chopin.
Devo começar por dizer que só recentemente comecei a compreender Chopin. Talvez por antes ter vivido num momento no tempo em que falar de poesia e sensibilidade chamava um Nocturno delicodoce tocado junto ao psyché, para citar a imortal Marilú. Talvez por só tarde ter percebido que a imagem do Chopin tísico e hiper-romântico é uma construção de marketing para enclausurar génios, manter as senhoras em casa ao piano, e permitir que um certo nível de pirosice seja considerada romantismo tardio. Pequeno-burguesias do gosto, quanto ordenais!
Porém: neste concerto, em que me fixei por paixonite aguda aos quinze anos, há a altura mágica de um Chopin dividido entre inovação e estrutura, arquitectura e efeito, projecto e raizes.
Comecei com uma versão honesta, mas que não recomendo: a que Maria João Pires gravou para a Erato. Mas logo fui levado para a rapidez e a tempestade de Martha Argerich com Claudio Abbado e os furiosos berlinenses (DG). O concerto transformou-se logo numa luta entre emoção e verdade, quase uma batalha em que o coração e o piano só vencem se derem a vitória ao outro. O CD que tinha na altura, dos “Originals”, vinha associado a um primeiro Concerto de Liszt de génio e de fúria, e lembro-me de nunca conseguir ouvir um depois do outro, pelo abismo emocional que separava as duas obras.
Depois, uma boa recomendação dos “Indispensables” levou-me para a primeira versão de Rubistein (com Barbirolli), uma caixa da EMI com uns Nocturnos de génio, mas com um som histórico difícil. Foi um dos meus primeiros CDs, comprado com as gorjetas do restaurante onde trabalhava então. Lembro-me do que aprendi com aquele concerto tão murmurado quanto cheio de bravata, uma espécie de orgulho romântico destemperado.
Lipatti com Ackerman (EMI) veio depois. O que há a dizer sobre qualquer gravação de Lipatti, senão que é ouro puro, bebível, transformado em céu e carne? Mas o som é distante e o piano está tão longe que não parece real – tal como a beleza da interpretação.
Estava para vir a – ainda hoje debatida – reinterpretação total de Krystian Zimerman, a dirigir do piano a Polish Festival Orchestra. Tempos esticados, orquestra reinventada, mas tudo excessivo e aumentado como se fosse um favor feito a uma orquestração. Porém, ainda hoje o oiço com gosto, para reinventar a peça na minha memória.
Durante algum tempo frequentei a versão de Boris Berezovsky (Mirare), com os dois Concertos, para a achar agora demasiado plana. Talvez por se opor tão bem à anterior. É um concerto para os dias em que queremos o Chopin da pauta e não o que Chopin pode fazer por nós.
Estava para vir a grande descoberta, e a mais inesperada. Chegou sem que tivesse pedido, como todas as coisas que dão degraus à alma. A descoberta foi recente, e ainda a saboreio, mas devo frisar que se já ouvi orquestras mais tronitruantes, as frases do piano não as consigo esquecer. Ando por Bruxelas sem headphones e são as frases deste piano que criam esquinas às ruas, sol aos pingos de chuva.
Por isso: é de procurar, por todos os meios, a incorruptível gravação de Georges Cziffra com a orquestra da ORTF. Está na caixa “La Discothèque Idéale de Diapason”, organizada pela revista homónima, numa repicagem soberba. Toda a caixa é um paraíso de interpretações esplêndidas, cortantes. Como este concerto pelas mãos do hiper-virtuoso Cziffra, que habita este concerto com uma respiração tão funda e cortada, que se termina o primeiro andamento com o mistério de uma transfusão.

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